quinta-feira, 31 de março de 2022

O RETORNO DE JESUS

 

O RETORNO DE JESUS

João, 21:18-23 diz Jesus, dirigindo-se a Pedro: – Em verdade, em verdade, te digo: quando eras jovem, tu te cingias e andavas por onde querias. quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te conduzirás aonde não queres. Trata-se de um aforismo, relacionado com a mocidade e a velhice. O jovem se cuida; o velho tem que ser cuidado. O jovem tem a iniciativa; o velho depende dos outros. No contexto evangélico, Jesus queria dizer que o apóstolo teria uma morte não desejável, como de fato aconteceu. Segundo a tradição, Pedro foi martirizado em Roma, quando se iniciaram as perseguições aos cristãos. Levado à cruz, consta que teria pedido para ser crucificado de cabeça para baixo, por não se sentir digno de morrer como seu Mestre. ... Dirigindo-se, ainda, a Pedro, diz Jesus: – Segue-me. Essa expressão tem sido empregada em todos os tempos, como um forte apelo aos que se afinam com o Evangelho. Aquele que realmente sente a grandeza e o significado dos ensinamentos de Jesus é convocado a seguir o Mestre pelos caminhos da renúncia e do sacrifício de seus próprios interesses, em favor do bem comum, a partir da perene orientação – fazer ao semelhante o bem que gostaríamos nos fosse feito. Virando-se, Pedro viu que João também os acompanhava. Perguntou: – Senhor, e este? Era como se perguntasse se João também passaria pelo martírio, e Jesus respondeu-lhe, enigmaticamente: – Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa? Segue-me tu. Aparentemente, João não teria o mesmo destino. Aquela afirmativa sustentou uma expectativa na comunidade cristã. Imaginou-se que ele não morreria, enquanto Jesus não voltasse para o julgamento final da Humanidade. Quando o apóstolo morreu, em idade avançada, houve grande decepção. Jesus não viera (afinal Jesus nem veio para a maioria dos que se intitulam cristãos – e quando Jesus veio e isso ocorreu no que ficou marcado como Pentecostes; João ainda vivia em Patmos) -. Não obstante, ficou ao longo dos tempos a expectativa do retorno do Messias, para o julgamento, a promoção dos bons ao paraíso, a perdição dos maus, no inferno. O tempo passou e ele não chegou, contrariando expectativas que se sucediam... Na virada do primeiro século... Na virada do primeiro milênio. D Ultimamente se esperava que chegasse no final do segundo milênio. Havia até um vaticínio supostamente contido nos Evangelhos: De mil passou, a dois mil não chegará. Algumas seitas até marcaram datas, frustrando-se quando elas chegaram e nada aconteceu. Não obstante o fracasso de todas as previsões, cultiva-se intensamente a ideia de que o Mestre está por chegar. Em fachadas de casas, em decalques em automóveis, em para-choques de caminhões, frases enfatizam: Jesus está chegando! E alguns, no afã de se dizerem merecedores do Mestre, adotam afirmativas assim: Eu sou de Jesus! E tudo passa a ser de Jesus. Em alguns automóveis, a expressão: Propriedade de Jesus. Um ladrão preso após roubar um carro que estampava essa frase, justificou: – Ganhei de Jesus! ... Será que Jesus virá, realmente? Fazer o quê? A mensagem maior, já nos ensinou: o amor. É a essência do Universo, o hausto criador de Deus, a força suprema que preside o equilíbrio dos astros. Dizem alguns: Haverá o julgamento! Danação eterna para os maus! Eternas benesses para os bons! E onde fica a infinita misericórdia divina, que pressupõe infinitas oportunidades de reabilitação para os transgressores das leis divinas?! Pior, estaria comprometida a Justiça perfeita de Deus, já que não há crimes, por mais tenebrosos, que justifiquem o castigo sem-fim. Seria o mesmo que condenar alguém à prisão perpétua, pelo roubo de um pão. E a eternidade é bem mais que uma existência humana... ... Não há por que esperar por Jesus. Compete-nos ir ao seu encontro no Reino de Deus, considerando que o Reino, como ensina o Mestre, está dentro de nós mesmos. Então esse encontro sagrado ocorrerá na intimidade de nosso próprio coração, quando nos dispusermos, com todas as forças de nossa alma, a atender àquele segue-me, com que o Mestre nos convoca desde sempre.

NOTA: é sempre conveniente lembrar que os evangelhos foram nomeados na sua tradução para o latim; e não há garantia que os nomeados foram os que escreveram os evangelhos. Por outro lado, afirma Huberto Rodhen e Carlos Torres Pastorino que todo o capítulo 21 de João não é real, por não existir na história do Cristianismo.

Pentecostes é uma celebração religiosa cristã que comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo, cinquenta dias depois da Páscoa. O termo “Pentecostes” se originou a partir do grego pentēkost, que significa “quinquagésimo”, em referência aos 50 dias que se sucedem depois da Páscoa.

No Antigo Testamento da bíblia sagrada cristã, o Pentecostes era uma comemoração feita exclusivamente pelos judeus, logo após a última colheita do ano, numa forma de agradecer pela comida providenciada por Deus.

Também ficou conhecida como uma celebração da Lei de Deus. Essa comemoração aconteceu especificamente na primeira Páscoa após o povo de Israel sair da escravidão do Egito e receber os Dez Mandamentos enviados por Deus.

Porém, no Antigo Testamento, o Dia de Pentecostes é citado com outros nomes, como: Festa da Colheita ou Sega (Êxodo 23.16 – “guardarás a festa da Messe, das primícias dos teus trabalhos de semeadura  nos campos, e a festa da colheita, no fim do ano, quando recolheres dos campos o fruto dos teus trabalhos”), Festa das Semanas (Deuteronômio 16;9,12 – “contarás sete semanas a partir do momento em que lançares a foice nas espigas celebrarás então a festa das semanas em honra de Iahweh teu Deus... ,... celebrarás a festa das Tendas durante sete dias, após ter recolhido o produto da tua eira e do teu lagar”) e Dia das Primícias dos Frutos (Números 28.26 – “no dia das primícias, quando oferecerdes a Iahweh uma oblação de frutos novos da vossa festa das semanas, tereis assembleia santa; não fareis nenhuma obra servil”).

No Novo Testamento, a comemoração de Pentecostes é citada no livro dos (Atos dos Apóstolos 2 – “tendo-se completado o dia de Pentecostes estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um ruido como o agitar-se de um vendaval impetuoso, que encheu toda a casa onde se encontravam. Apareceram-lhes, então, línguas como de fogo que se repartiam e pousaram sobre cada um deles”), episódio que narra o momento em que os apóstolos de Cristo receberam os dons do Espírito Santo, logo após a subida de Jesus aos céus.

 

Fonte:

Richard Simonetti

Bíblia de Jerusalém

Definições

O SEMBLANTE DE JESUS

 

O SEMBLANTE DE JESUS

A mais de dois mil anos Jesus veio a terra como o filho enviado por Deus para trazer à humanidade a mensagem de paz que pudesse transformar os corações humanos, servindo como o cordeiro oferendado para salvar a humanidade de seus pecados (já que àquela época, era através das oferendas que se encontrava perdão divino). De lá para cá, sua mensagem foi assimilada por muitos, que mudaram a forma de viver nesse planeta, bem como deturpada por outros, que a utilizaram como forma de domínio e de poder.

Naquele tempo, Jesus trazia em sua missão a implantação do amor nos corações humanos para transformá-los tornando-os pessoas melhores rumo ao objetivo da evolução espiritual, contudo, ainda falava por parábolas, conforme deixa claro o Evangelho Segundo o Espiritismo nas lições de Kardec, Allan (p.214, 1978).

Ou seja, àquela época, a humanidade ainda não estava preparada para compreender conceitos existenciais importantes e se ditos naquele momento, não seriam interpretadas como deveriam ser, deturpando a ideia central do que é a vida neste mundo em virtude do arraigado materialismo existencial daquela época.

Assim, muitos anos depois, com as evoluções tecnológicas, culturais e sociais, quando o homem sai da época da barbárie da antiguidade primitiva, avança pela época das convicções próprias medievais, adentra a evolução modernista, tem-se um ser humano ao menos preparado para ouvir e saber interpretar melhor o que é realmente a vida eterna e o seu objetivo neste planeta. Muitos vieram após Jesus para lapidar sua mensagem conforme a lei de amor e, por fim, surge a Doutrina Espírita.

Ainda incipiente, o Espiritismo claudica pela ceara da fenomenologia quando o professor francês Hippolyte Leon Denizard Rivail, que se intitulava Allan Kardec aprimora o entendimento empírico da nova doutrina partindo da análise do curioso fato das mesas girantes, que virou uma febre em Paris à época de meados do século XIX, analisando friamente o que poderia explicar tal fenômeno partindo das teorias basilares da física e de outras áreas do conhecimento. Surgem as comunicações espíritas, através da transmissão mediúnica nas quais um médium intermedeia o processo comunicativo servindo de meio pelo qual os espíritos expressam suas mensagens do mundo espiritual aos encarnados.

Mas o que as obras literárias do Professor Hippolyte poderiam ter em comum com a mensagem de Jesus Cristo que já há séculos pregava o amor como fonte de transformação da humanidade? O fato é que a doutrina espírita inicialmente elucidou a humanidade acerca das realidades do mundo espiritual, demonstrando que a vida terrena é passageira representando um átomo de tempo frente a real vida, a espiritual, e que aqui viemos para resgatar débitos ou enfrentar desafios para que possamos evoluir moralmente e para galgar vivenciar em mundos mais evoluídos que este, despojados de aspectos primitivos.

Fincada nos pilares da religião, ciência e na filosofia, a doutrina espírita apresenta-se inicialmente sobre as obras do pentateuco de Allan Kardec sendo composta por: O livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e o Inferno e após seu desencarne, publicou-se o livro Obras Póstumas.

Editado no ano de 1859, o Livro dos Espíritos representou uma verdadeira revolução para a sociedade francesa daquela época. O materialismo ainda era exacerbado, contudo as verdades espíritas não tardaram a ganhar campo e conquistar a atenção de muitos.

Kardec utilizou-se do método empírico para, através da intervenção mediúnica, interrogar os espíritos acerca de diversos temas, desde quem é Deus até o que é o paraíso e o purgatório para criar o corpo da doutrina espírita, confirmando as respostas apresentadas por espíritos sérios através da identidade moral apresentada pelos mesmos, bem como da repetição uniforme de informações em outras mesas mediúnicas pelas psicografias mediúnicas que já se espalhavam incontrolavelmente mundo afora.

Mas o que a obra tem com os ensinamentos de Jesus? Como exemplo, na pergunta 149 do Livro dos Espíritos (Que sucede à alma no instante da morte? “Volta a ser Espírito, isto é, volve ao mundo dos Espíritos, donde se apartara momentaneamente.”  A alma, após a morte, conserva a sua individualidade? “Sim; jamais a perde. Que seria ela, se não a conservasse?” a) — Como comprova a alma a sua individualidade, uma vez que não tem mais corpo material? “Continua a ter um fluido que lhe é próprio, haurido na atmosfera do seu planeta, e que guarda a aparência de sua última encarnação: seu perispírito.” b) — A alma nada leva consigo deste mundo? “Nada, a não ser a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor, lembrança cheia de doçura ou de amargor, conforme o uso que ela fez da vida. Quanto mais pura for, melhor compreenderá a futilidade do que deixa na Terra.”), Kardec questiona aos espíritos “Em que se torna a alma no instante da morte?” o que prontamente é respondido: “- volta a ser Espírito, quer dizer, retorna ao mundo dos Espíritos, que deixou momentaneamente”.

Elucidando que alma é a condição temporária na qual o espírito se encontra quando encarnado em um corpo material neste ou noutro planeta, e que este espírito interliga-se através do períspirito ao corpo material, tem-se na explicação dada, prova cabal da efemeridade da vida terrena e que quando dela partimos voltamos à vida real, a do no mundo espiritual, recordando de quem realmente somos e de todas as nossas vivências neste mundo ou por onde já passamos através dos séculos, uma vez que somos eternos.

Nesse sentido, Jesus Cristo, em sua mensagem de amor, buscando elucidar a humanidade sobre a necessidade de reformar seus atos e a maneira de enxergar a vida à luz do amor ao próximo, já dizia que “Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo”, elucidando acerca da necessidade do homem se remodelar moral e sentimentalmente, vendo o mundo de outra forma, se assim quer chegar ao reino de Deus, ou seja, a evolução de si. Mais adiante, no Evangelho Segundo o Espiritismo (p. 45, 1978), em seu Capítulo IV o Mestre reforça o exposto.

Deixando assim, mais do que comprovada à vida após a morte corporal e que é com a evolução que o homem se despoja do arraigado desejo material sublimando para uma visão menos grotesca acerca da sua própria existência e que se nos aproximamos mais da matéria, em seus diversos sentidos, estamos mais afastados de valores como o respeito ao próximo, amor incondicional, perdão, o entendimento da necessidade das dificuldades como forma de equilibrar o universo livrando nossa consciência do remorso retardatário das obras malfazejas de outrora bem como meio de superar desafios capazes de testar nossa aptidão para suportar a dor e os sofrimentos.

Ao Estudar o Evangelho segundo o Espiritismo, é cabível explicitar àqueles que não acreditam em Jesus e questionam-se o motivo pelo qual leem este artigo, que Jesus mais do que qualquer coisa foi um Fato na história da humanidade. A ciência história marcou a linha do tempo da história como Antes e Depois do Cristo, havendo uma contagem de tempo do ano zero para trás e do ano zero para frente, ou seja, é uma comprovação científica e didática passada a todos ao longo dos séculos no aprender da história geral nada tendo a se questionar se Jesus realmente existiu ou não.

Durante sua breve passagem neste planeta, no cumprir de sua missão, Jesus não se dedicou a propagar sua mensagem através da escrita – O tempo era curto, ficando essa tarefa para seus evangelizadores e apóstolos que assimilavam seus ensinamentos doutrinários e os imortalizavam através das escrituras cristãs.

É apropriado ressaltar que antes de Cristo, o velho testamento já trazia a mensagem de Deus para reformar a humanidade, mas era um Pai vingativo e penalizador, pois a humanidade precisava do “chicote” para ser obediente como uma criança mal-educada; já nas novas escrituras, após Jesus, o real Deus é apresentado como benevolente e que busca o equilíbrio universal.

O Evangelho segundo o Espiritismo é justamente o aproveitamento das Leis Morais apresentadas no Evangelho de Jesus à luz dos ensinamentos da nova Doutrina, assim, tem-se passagens na citada escritura que apresentam e que elucidam a vida espiritual como eterna demonstrando a efemeridade da vida carnal, é o exemplo claro do Capítulo IV (“. Qualquer privilégio seria uma preferência, e toda preferência, uma injustiça; mas a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio.”) pag.76) em que é questionada se a encarnação é uma punição aos espíritos culpados o que prontamente é respondido: “a encarnação não é senão um estado transitório; é uma tarefa que Deus impõe como primeira prova do uso que farão de seu livre arbítrio”.

O próprio Cristo demonstrou através da sua ressurreição que a vida carnal é temporária, ressuscitando para o Divino, e que a vida real é aquela que estamos despojados da matéria, cumprindo sua missão ao ser crucificado.

Após a escrita do Livro dos Espíritos e com a disseminação dos fenômenos mediúnicos por várias partes do mundo através da psicografia, psicofonia, clarividência, inspirações e até o que se chamava paranormalidade a ciência espírita já tinha seu corpo formado e suas bases alicerçadas, mas o trabalho não parou e as obras foram complementando-se para dar continuidade ao edificante trabalho elucidador.

Assim, o livro dos médiuns, ou guia dos Médiuns e dos Evocadores vem esclarecer os gêneros e formas de comunicação com o mundo invisível no ano de 1861 em Paris. Observemos que em determinado trecho da obra, mais precisamente em seu Capítulo XIV, (Unicamente para não deixar de mencioná-la, falaremos aqui desta espécie de médiuns, porquanto o assunto exigiria desenvolvimento excessivo para os limites em que precisamos ater-nos. Sabemos, ao demais, que um de nossos amigos, médico, se propõe a tratá-lo em obra especial sobre a medicina intuitiva. Diremos apenas que este gênero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação. Dir-se-á, sem dúvida, que isso mais não é do que magnetismo. Evidentemente, o fluido magnético desempenha aí importante papel; porém, quem examina cuidadosamente o fenômeno sem dificuldade reconhece que há mais alguma coisa. A magnetização ordinária é um verdadeiro tratamento seguido, regular e metódico; no caso que apreciamos, as coisas se passam de modo inteiramente diverso. Todos os magnetizadores são mais ou menos aptos a curar, desde que saibam conduzir-se convenientemente, ao passo que nos médiuns curadores a faculdade é espontânea e alguns até a possuem sem jamais terem ouvido falar de magnetismo. A intervenção de uma potência oculta, que é o que constitui a mediunidade, se faz manifesta, em certas circunstâncias, sobretudo se considerarmos que a maioria das pessoas que podem, com razão, ser qualificadas de médiuns curadores recorre à prece, que é uma verdadeira evocação.) é questionado se certas pessoas possuem verdadeiramente o dom da cura pelo simples contato, sem o emprego dos passes, e a resposta é que sim.

Não precisamos aqui elencar a quantidade de milagres realizados por Jesus a mais de dois mil anos, mas citamos o caso em que uma mulher fora curada somente ao tocar seu manto com base em sua fé, quando o Mestre responde-lhe “a tua fé te curou”, ou seja, a doutrina espírita, está intrinsecamente ligada aos ensinamentos de Jesus que foram transmitidos àquela época de outra forma em virtude do desenvolvimento e da cultura daquele tempo. Hoje, é tida como a boa nova trazida para consolidar o que já fora apresentado por Jesus.

A Gênese representa a continuidade da evolução da doutrina espírita, publicada em 1868, reflete temas relativos à origem do universo, o esboço geológico da terra desde períodos primitivos ao nascimento do homem, milagres, fluidos, dentre outros temas mais. No evangelho de Mateus, Cap. XXIV, v.35, a mensagem de Jesus é clara ao dizer que “passarão o céu e a terra; minhas palavras, porém, não passarão”, ou seja, mesmo que a terra sofra as evoluções sociais, culturais e estruturais com o passar do tempo, a palavra de Jesus sempre existirá reformando os conceitos morais da humanidade.

E com o homem sempre se rendeu à matéria, até mesmo na forma de adorar a Deus, ou aos deuses nas sociedades politeístas, com a adoração de imagens ou oferendas, inclusive de sangue, os milagres visivelmente realizados ao longo da jornada de Jesus neste planeta foram umas das formas de demonstrar sua autoridade moral e espiritual frente àqueles espíritos em estágio de evolução.

Mas os milagres realizados são fruto da evolução de Jesus, que caminhava ao ápice da evolução espiritual, sabendo bem como atuar com as energias empregando-as para o bem, quando aqui encarnado. Reflexo do exposto, a Gênese (1992, p.192) demonstra que as curas podem se dá ela pele utilização do próprio fluido do magnetizador, pelo fluido de espíritos agindo diretamente sem intermediário, como também pelos fluidos que os espíritos despojam sobre o magnetizador e ao qual este serve de condutor.

Em 1º de agosto de 1865 o professor Rivail brinda o movimento espírita com a obra O Céu e o Inferno, ou, A Justiça Divina Segundo o Espiritismo, nessa obra observa-se um exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corpórea, a vida espiritual, as penalidades e recompensas futuras, os anjos e os demónios, dentre outros temas.

Não poderia passar despercebido, o nexo existente entre essa tão importante obra com a presença de Jesus em nosso planeta encarnado. Quando aqui veio, deixando sua mensagem de amor ao próximo, perdão e substituição dos sentimentos obscuros por sentimentos puros que possam elevar o ser humano a uma condição moral que o livre do ódio, ambição o egoísmo, dentre outros perniciosos sentimentos, o Cristo demonstrou que através do sofrimento que aqui passamos alcançamos a redenção renunciando a maldade com o aprendizado imposto seguindo para as esferas espirituais mais elevadas dando passos importantes para a elevação espiritual.

Em O Céu e o Inferno (2009, p.309), pode-se observar a comunicação advinda do mundo espiritual trazida por Annaïs Gourdon, (A Sra. ANAIS GOURDON Era muito jovem e notável pela doçura do caráter e de eminentes qualidades morais que a distinguiam, tendo falecido em novembro de 1860. Pertencia a uma família de mineiros dos arredores de Saint-Étienne, circunstância que torna interessante sua posição espiritual. Evocação: - R. Presente. - P. Vosso pai e vosso marido pediram-me para evocar-vos, e felizes se julgariam se obtivessem uma comunicação. 239 ESPÍRITOS FELIZES - R. Eu também sou feliz em dá-la. - P. Por que tão cedo vos furtastes aos carinhos da família? - R. Porque terminei as provações terrenas. - P. Podeis ver algumas vezes os vossos parentes? - R. Oh! estou sempre ao lado deles. - P. Sois feliz como Espírito? - R. Sou feliz. Amo e espero. Os céus não me infundem temor, e cheia de confiança aguardo que asas brancas me alcem até eles. - P. Que entendeis por asas brancas? - R. Tornar-me Espírito puro, resplandecer como os mensageiros celestes que me ofuscam. Nota - As asas dos anjos, arcanjos, serafins, que não passam de Espíritos puros, são evidentemente apenas um atributo pelos homens imaginado para dar ideia da rapidez com que se transportam, visto como a sua natureza etérea os dispensa de qualquer amparo para fender os espaços. Contudo, eles podem aparecer aos homens com tal acessório para lhes corresponderem ao pensamento, assim como os Espíritos se revestem da aparência terrestre a fim de se fazerem cognoscíveis. - P. Podem os vossos parentes fazer algo em vosso favor? - R. Podem, caros irmãos, não mais me entristecendo com as suas lamentações, pois sabem que não estou perdida de todo para eles. Desejo que a recordação de meu ser lhes seja suave e doce. Passei qual flor sobre a Terra, e nada de pesaroso deve subsistir dessa passagem. - P. Como pode ser tão poética a vossa linguagem, e tão pouco em harmonia com a posição que tivestes na Terra?) uma jovem mulher notável pela sua doçura de caráter, bem como qualidades morais, falecida ao findar de 1860. Ela pertencia a uma família de trabalhadores de minas de carvão e fora evocada a pedido do pai e do marido, e assim prossegue em sua comunicação:

“P.- Por que foste arrancada tão cedo ao convívio da família?

“R.- Porque minhas provas terrestres chegaram ao fim.

“P.- Sois felizes como espírito?

1.     Sou feliz. Amo e espero; os céus não constituem terror para mim e aguardo, confiante e com amor, que as brancas asas me conduzam até eles.

 “P.- Que entendeis por essas Asas?

 “R.- Entendo tornar-me espírito puro e resplandecer com o os mensageiros celestes que me deslumbram.”

 

A comunicação realizada séculos após a partida de Jesus, demonstra de forma patente o que seu exemplo deixou para a humanidade acerca das penas e sofrimentos, aprendizado e resignação, evolução para o mundo espiritual. Mas nem todos chegam a esse patamar e muitas vezes penam por encarnações sucessivas até alcançarem o aprendizado.

Após o desencarne do mestre Rivail, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas reuniu, em 1890, uma compilação de estudos do codificador editando esta obra. Em mencionada seleção (2007, p.64) podemos visualizar com o passar dos tempos a adequação à doutrina de Jesus à realidade espírita.

Tem-se ali no §VII a referência às obsessões e a possessões, onde aquela representa a influência que os desencarnados exercem sobre os encarnados através de suas energias – que se adequam ao padrão vibratório do encarnado – e direcionamentos mentais para o mal enquanto esta se refere ao mais alto nível de subjugação que um espírito pode exercer sobre um encarnado, muitas vezes comandando-o como uma marionete que não consegue sequer se controlar.

Aqui a referência faz-se importante, pois por diversas vezes ao retirar-se ao deserto, Jesus Cristo foi tentado pelo “Diabo” como uma forma de o obsidiar a seguir outro caminho e deixar sua missão (Mateus 4: 1-11 – “então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então aproximando-se o tentador, disse-lhe: “se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Mas Jesus respondeu está escrito” não só de pão vive o homem, mas e toda palavra que sai da boca de Deus. Então o diabo levou-o a cidade santa e o colocou sobre o pináculo do te pelo e disse-lhe. Se és filho de Deus atira-te para baixo, porque está escrito. Ele dará ordem a seus anjos a respeito e eles te tomarão pelas mãos ara que não tropeces em nenhuma pedra. Respondeu-lhes Jesus: também está escrito não tentarás ao Senhor teu Deus. Tornou o diabo a levá-lo agora para um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe: tudo isto te darei se prostrado me adorares. Ai Jesus lhe disse: vai-te atanas porque está escrito ao Senhor teu Deus adoraras e a ele só prestaras culto. Com isso o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo”).

Desta forma, conclui-se que a doutrina do Mestre Jesus Cristo fincou-se em diversos ensinamentos que mudaram o rumo da humanidade, ou pelo menos de uma parcela considerável da mesma, e, quando evoluída, a sociedade foi esclarecida acerca das verdades espirituais através da Doutrina Espírita, contudo, observa-se que mesmo apresentando seu lado Cientifico e também Filosófico, o Espiritismo tem suas bases alicerçadas na doutrina de Jesus e é por isso que tem autoridade moral e é fincada em fatos comprovados perdurando até os tempos de hoje esclarecendo mais e mais seguidores.

 

 

 

 

 

 

 

Jesus Cristo era um espírito como nós, mas com um grau de evolução muito longe da nossa realidade. Esse fato não quer dizer que somos inferiores a ele, se fossemos causaria uma distância muito grande dele conosco e não foi isso que ocorreu quando ele encarnou na terra, tinha um vínculo muito grande com os cidadãos da época.

Não há um “endeusamento” a Jesus, mas sim um reconhecimento pois como diz a doutrina espírita no Cap.1 de O livro dos espíritos:

Jesus Cristo é o espírito mais puro que veio a terra, com isso é nosso maior guia e modelo a ser seguido”.

Diz também Paulo de Tarso sobre Jesus “Não existe um homem que não pecou, não existe um homem bom, apenas Jesus nunca pecou.” Então realmente é um espírito acima de média, um espírito de uma esfera crítica que caminhou entre nós, num exemplo de amor nunca visto antes.

Não era necessário para Jesus encarnar no nosso planeta terra. Ele veio apenas por nós, para mostrar as leis divinas, para passar seus ensinamentos e seguir os seus passos junto com nosso pai que é Deus.

Em João 12:47 temos as seguintes palavras de Jesus Cristo:

“se alguém ouvir minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo; pois não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”.

Jesus não era dotado de algo sobrenatural, mas na realidade ele tinha, capacidade, recursos, inteligência, habilidades, evolução moral e intelectual, desenvolvida a milênios atrás.

Onde e como ele conseguiu evoluir tanto, não podemos nem imaginar, pelo fato de nossa evolução encarnatória que está muito abaixo da dele.

Encare a vida de acordo com os ensinamentos de Jesus, você pode sim se comparar a ele com humildade. Além de seguir seus ensinamentos e deixar que ele guie seus passos que é a melhor opção sempre.
Para saber mais sobre o assunto assista ao programa “Mundo Maior Repórter” que diz sobre: 

FONTES:

TV Mundo maior

Espirito.org

BIBLIA de Jerusalém.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno.

KARDEC, Allan. A Gênese.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas

André Barreto Lima

 

OS GUIAS DO MUNDO

OS GUIAS DO MUNDO

Tudo é luta na vida. Esta parece querer exprimir-se sobretudo em forma de luta, e exercitar desta maneira a sua maior atividade. É a vida uma contínua tensão para vencer em qualquer plano. Nas suas fases mais primitivas, vencer a fera inimiga, na atual fase de vida em sociedade, vencer o próximo a fim de suplantá-lo; no biótipo do super-homem vencer para subjugar e superar as leis inferiores da animalidade e dar ao mundo novas diretrizes. Lutar para vencer, ou seja, para elevar-se, ascender, evolver. A lei suprema da evolução toma a forma de luta desesperada, para remir-se da dor e do mal e conquistar a felicidade. Esta encontra-se escrita e arde perenemente no fundo da alma humana, como um instinto, um anseio inextinguível, um sonho, uma fé, como uma utopia que sabemos fugir longínqua e inatingível, mas na qual o homem é obrigado a crer, contra todas as aparências e dificuldades, até ao desespero. Isto porque, sem tal fé num futuro melhor, mesmo que pareça loucura, não teria o homem mais conforto na fadiga de ascender, nem mais finalidade na sua caminhada, nem luz alguma de esperança no amanhã.

 

São por isso importantes elementos a utopia e a fé e fazem parte integrante da mecânica da vida. Por mais que desprezem tudo isso os céticos e os práticos positivos, se existe isso na vida, alguma função deve ter, e é justamente a de antecipar o futuro. A série das mesquinhas, ilusórias e instáveis aquisições, que estão ao nosso alcance na existência terrena, não é suficiente para dar finalidade e justificação a todo o trabalho imenso que realiza a nossa existência, como indivíduos e como sociedade. E não podemos dizer que vivemos para perder tempo, inutilmente, e para sofrer. Se cada fenômeno, se cada ato nosso é um caminho para uma finalidade, o fenômeno e o ato máximo, que são a nossa vida e o funcionamento do universo, como poderiam deixar de ter uma finalidade? Por mais escuro que seja o futuro, a utopia e a fé são uma ponte lançada sobre essa escuridão, para sondá-la, nela apoiar o pé e aí construir, à proporção que ela se torna presente pelo nosso aproximar-se.

 

Respondem, pois, a utopia e a fé a necessidades criadoras, que representam verdadeiras funções biológicas de sondagem no desconhecido e de preparação para o porvir. A luta pelo ideal, isto é, pela superação das velhas formas de vida, a fim de progredir realizando outras mais evolvidas e aperfeiçoadas, é uma das formas, e a mais elevada, da luta pela vida. Se nos primeiros degraus da evolução biológica consistia tal luta apenas em salvar, por qualquer meio, rude e feroz, a própria existência contra os elementos hostis e o assalto das feras; se hoje a mesma luta assumiu formas de competição política e econômica, próprias da vida social; para alguns biótipos mais adiantados, pode assumir essa luta outra forma: a que se dirige contra o lado humano mais involuído, específico do primitivo feroz, lado que ainda sobrevive em nossos instintos, ou seja, luta para superar o plano biológico do animal, de que faz parte ainda o nosso corpo físico. Significa isto libertar-se das formas de existência inferior, para ter acesso a outras superiores, não só na forma de progresso individual de quem realiza essa luta, mas também na forma de progresso coletivo para povos assim guiados a formas mais evolvidas de convivência.

 

Tratando-se então de verdadeiras funções biológicas, a vida as confia a algumas células do organismo – humanidade –, a alguns elementos mais especializados e selecionados, como acontece para as células nervosas no corpo humano. Produz assim a vida, em quantidade e qualidade proporcionadas aos tempos e ao trabalho a executar, alguns tipos de super-homens, particularmente aptos a essas funções. Podem eles tomar a forma de heróis, de gênios, de santos. Sua função pode manifestar-se em várias formas, de acordo com o lugar, a época e as realizações a executar. São os maiores lutadores, porque se propõem a subjugar não as feras inimigas ou os seus semelhantes, mas a superar leis e formas de vida de um plano biológico, para pôr em prática leis e formas de vida de um plano mais adiantado de evolução. Despertam eles em si e na humanidade, qualidades latentes ainda adormecidas, dão uma direção à contínua transformação dos instintos, indicando ou impondo novos hábitos, que depois, pela longa repetição através da técnica dos automatismos, se fixam como qualidades novas. Desse modo, impulsionam eles a humanidade para sempre mais longe da ferocidade, da ignorância, do egoísmo, da materialidade, e sempre mais próximo da bondade, da inteligência, do altruísmo do homem coletivo, da espiritualidade. Podem assumir a forma de condutores de povos, de grandes pensadores, cientistas, artistas, mártires do ideal e do dever, místicos, santos. Mas, de qualquer modo, emergem ensanguentados das mais duras experiências e lançam o novo grito do porvir. São eles a flor, o produto destilado da raça, e anunciam, percorrem e fazem percorrer novo caminho para novos horizontes. São verdadeiros pastores do rebanho humano, que doutra forma permaneceria sempre atento a pastar com a cabeça inclinada para a terra, seu único anseio.

 

Esses homens de exceção personificam, no vértice, o drama das deslocações evolutivas ou revoluções biológicas. Passam no ciclo da vida como um raio que ilumina dum extremo a outro a terra escura, dinamizando a massa inerte da carne do vulgo humano. São eles a centelha do espírito que vivifica as formas da matéria. São os maiores vencedores, porque realizam e vencem a luta mais alta, a que impulsiona a humanidade a progredir. São os grandes da vida, que os fez os mais fortes e lhes confia trabalhos de gigante. O seu trabalho é o resultado de atitudes superiores, de vontade de ferro, de fadiga ardentemente desejada, tenaz e convergente, de irresistível paixão do bem. O homem normal, imerso nas batalhas do contingente cotidiano, ignora essas lutas apocalípticas realizadas no terreno da evolução para subir a Deus. Tremenda coragem é necessária para aventurar-se contra as forças biológicas, para arrancar o ser de um plano inferior e arrastá-lo a um superior. Mas só assim podem superar-se as barreiras que atrasam a ascensão e arrombar as portas de um mundo mais elevado, para entrar por elas.

 

Esses homens superiores são sempre guias do mundo, ainda que não pertençam à classe dos condutores políticos dos povos. Não é só no terreno político que deve adiantar-se o mundo, mas em todos os campos do seu multiforme progresso. Tornam-se esses homens instrumentos da vida, por meio do qual ela realiza seus fins. Fazem-se intérpretes de seus desígnios e executores de seus planos. Têm sempre, por isso, nova mensagem a comunicar à humanidade e a sua função é sempre de modeladores, qualquer que seja o seu tipo particular e a missão a executar. É sempre aos mais adiantados que compete, por força da lei da vida, guiar o mundo em todas as suas formas; a vida assim quer e assim de fato acontece, mesmo que eles não tenham o poder político, ou bélico, ou econômico, ainda que os seus semelhantes os reneguem e matem. É realidade biológica indiscutível o fato de que eles são mais evoluídos em relação à média, e isto é muito importante para a vida e suas finalidades. As massas nada sabem, antes são levadas a desconhecê-los, porque eles são diferentes e porque delas se distanciaram pela evolução. As massas acham-nos diferentes, porque eles participam pouco em seus vícios e defeitos, que tanto irmanam as inferiores. Por isso, procuram rejeitá-los, e às vezes os perseguem até matá-los.

 

Esta é a luta trágica dos mais evoluídos contra os menos evoluídos, a fim de fazê-los progredir. Mesmo estes últimos desejariam dominar e se julgam modelo de vida, biótipo exemplar. O tipo normal, ainda hoje, de valor tão duvidoso, não é considerado como o que todos deveriam ser? E quem não é assim, é anormal. E todos se apressam a entrar nas filas da normalidade, pouco importa seu valor, contanto que não fiquem isolados, e, portanto, fora da lei e condenados. O peso tremendo da ignorância da grande massa humana é o lastro enorme que pende dos ombros do mais evoluído que tenta novos caminhos, com risco e perigo seus apenas, ao passo que os outros ficam a olhar, prontos para condená-lo logo que caia, prontos para agredi-lo por inveja, logo que ele triunfe. Com esse peso às costas, que representa o misoneísmo (aversão, repulsa a tudo o que é novo ou contém novidade; O mesmo que neofobia), inércia do passado, deve ele subir os íngremes degraus da evolução sozinho. A seu lado estão apenas as forças da vida, o pensamento da história, a vontade de Deus que impõe o progresso.

 

Deve esse homem enfrentar e conseguir superar todas as resistências que lhe opõem os seus semelhantes, nem eles mesmos sabem por que, mas que a vida usa como meio de verificação do valor do escolhido, que deve dar prova de saber vencer, dado que o alto monte da evolução tem que ser escalado mediante esforço nosso. Quando, vencendo tudo com suas forças, tiver o homem dado prova de o ser verdadeiramente superior, então as multidões ignaras, também desta vez sem saber por que, aprovam-no e exaltam, por um instinto profundo comandado pela vida. Então, aquela mesma distância que antes as afastava do tipo mais eleito, essa mesma é que agora as atrai, pois neste caso distância significa justamente posição mais avançada, que a vida, em seu instinto, aceita, respeita e exalta. As multidões, então, aceitam, respeitam e exaltam. Tudo na vida é utilitário. Elas fazem isto, porque precisam do super-homem e o buscam porque ele é a única antena da vida e o pioneiro do porvir, é o pastor único que as pode guiar. As multidões estão sempre à espera de chefes, de modeladores, de condutores em qualquer campo, para saberem o que devem fazer. Necessitam e procuram um modelo para imitar, um legislador que estabeleça a norma que devem seguir na vida, pois bem poucos sabem agir sozinhos. Por isso, sempre estão à espera, observam e, se o acham, ouvem, recebem, bebem e assimilam. E se o homem escolhido é adequado, e se com a sua vitória deu prova de valor, então as multidões o constituem seu modelo ideal, sua bandeira e ídolo sobre o qual projetam e concentram as suas aspirações, que a vida faz nascer em seu instinto naquela hora, com o fim de obter progresso. Forma-se então desse homem, a lenda, o mito, a divinização, em que permanece o essencial dele, o valor biológico, o impulso vital. Morre o homem, mas fica a sua imagem, até que tenha cumprido a sua função biológica. E desse homem permanece um símbolo, uma bandeira, a ideia, ativos até sua completa atuação na vida dos povos.

 

Explica-se assim o fascínio de tantos seres superiores, diante de um mundo que, de início, os julgou loucos, e que julgaria louco qualquer um que tornasse a imitá-los. Mas resta o fato de que é necessidade absoluta da vida o renovar-se para evolver. Só a evolução pode explicar-nos como esses seres de exceção ser aceitos pelas multidões absolutamente incapazes de compreendê-los. A admiração delas não pode explicar-se apenas como concordância passiva para imitar os mais cotados, que primeiramente entoaram o hino da exaltação. A concordância das multidões é própria delas e nasce por um instinto que lhes está no âmago e que as faz falar dessa maneira. Além disso, ninguém saberia explicar claramente o porquê dessa admiração. Mas de fato ela existe. E, no entanto, parece estranho ver como um São Francisco possa exercer um fascínio sobre o tipo normal, que está muito longe de pensar que um santo desses possa jamais ser verdadeiramente imitado por ele. Como podem as virtudes de renúncia desse santo, tão antivitais no plano comum biológico, tão nos antípodas dos instintos normais de conquista, egoísmo e agressividade, como podem fascinar tantas criaturas, num mundo em que perder é morrer e diante de princípios da vida tão ferreamente utilitários? Só pode explicar-se tudo isso, pensando na função biológica que a santidade tem em relação ao progresso religioso, moral e espiritual, que é sem dúvida, um aspecto importantíssimo do progresso social, sobre o qual ele tem grande influência. Mesmo na santidade há uma função biológica, e onde é função, é também fascínio, isto é, atração, um apelo ao instinto, ou seja, um convite a aderir, para que se cumpra a evolução. A veneração pelo santo é uma atitude que existe enquanto corresponde aos fins da vida, tanto quanto é admirado o homem pelo ser muito mais fraco do que ele, a mulher.

 

O ideal é loucura, e o mundo o sabe. Entretanto, tendo que evolver, o mundo tem fome do que é novo, e para conquistá-lo tem necessidade de tentar também o absurdo. As grandes conquistas da civilização foram vitórias conseguidas constrangendo o absurdo a tornar-se lógico e atual, pelas condições de vida que se mudaram. Se não houver razão biológica, jamais o subconsciente das massas tributária homenagens ao gênio, ao herói, ao santo, homenagem que continua mesmo quando tenha morrido o homem, e dele se não possa tirar mais vantagem alguma. Não basta o interesse de um grupo de sequazes, para explicar a sua sobrevivência ideal, que é uma corrente coletiva e não um produto de grupo. E não deixe de se pensar que aquele ideal que as multidões veneram, se representa um guia, significa também uma censura contínua e uma condenação à sua conduta. E, no entanto, a veneração permanece. Então, o instinto das massas sente por intuição a superioridade do super-homem, mesmo se não sabe compreender pela análise, sente que ali está assinalada uma das metas para seu porvir. Sabe que ela está longe, tanto que não sabe realizá-la hoje e lhe parece utopia. Mas ali está o farol luminoso, e aquela luz o atrai, porque, ainda que hoje pareça irrealizável utopia, representa, todavia, a única esperança do futuro.

 

Sabem todos muito bem que na vida prática não se consegue imitar um São Francisco, e bem poucos pensam em fazê-lo. E, no entanto, a sua figura nos enche a alma de saudade por algo de belo, de grande e de longínquo, enche-nos a mente com a imagem de um paraíso de alegrias espirituais, e nesse sonho se aquieta a nossa alma cansada. É tão dura a realidade cotidiana, é tão amarga a luta pela vida, tão triste é o mundo cheio de maldades e dor, que se torna alegria evadir-se em sonho e, ao menos nele, ver realizada uma beleza irreal. Por mais que tudo isso nos pareça absurdo e entre no terreno do irracional – e o homem que conheça o real o saiba – no entanto, ele não sabe resistir à alegria de poder repousar da vista sufocante das baixezas humanas, refugiando-se mais alto, num mundo melhor. Vistas da profundeza da miséria cotidiana de uma vida monótona e plana, por gente que se arrasta na estrada de destinos cinzentos e insignificantes, essas figuras, superiores em qualquer campo, aparecem como luzes ofuscantes que reanimam, provando que o progresso não é vã utopia e que o ideal é uma força que verdadeiramente impulsiona e sustém a vida. Se tão grande parte de nós, é representada pelo subconsciente, em que persistem e de que ressurgem os atávicos instintos animais, outra parte de nós é sem dúvida representada pelo superconsciente, em que desponta, por intuição, o pressentimento da ascensão e dos melhoramentos num plano mais elevado.

 

Tudo isso parece sonho e fantasia. E, no entanto, são estas evasões do mundo positivo da realidade concreta, os momentos mais criadores da vida. Quando a alma parece perder-se no irreal e no irracional, afastando-se do que parece única verdade segura, então afigura-se-nos que algo do melhor de nós desperte de um longo sono e se lança à obra de romper os limites do passado e transpor os velhos horizontes. Realmente são esses estranhos impulsos do desejo ainda inexpresso, que lançam o mundo nas novas estradas da evolução e que permitem realizar-se o milagre que sempre se repete, pelo qual, da utopia de hoje se extrai a realidade de amanhã. Se é verdade que estamos imersos nas necessidades férreas do contingente, é também verdade que, no fundo da alma humana, há um irrefreável e insaciável anseio de subida. Daí nasce uma contínua náusea do passado e um constante e desesperado esforço para subir. Há uma luta, na qual a luz quer vencer as trevas. Ainda que vagamente, as multidões sentem a beleza do homem superior, mas sabem que há muito cansaço e dificuldade em segui-lo. Apegam-se então à sua memória, veneram as suas relíquias, esfregam-se às pedras do seu túmulo, cantam-lhe hinos, para assim desafogar como podem essa vaga saudade de superação que existe em cada ser humano, este anseio de infinito que nos arrasta a todos.

 

Tudo isto é um sonho, sabemo-lo. Mas sonhar é pensar e desejar. E o pensamento e o desejo têm poder criador. Quando fortemente e durante muito tempo pensamos em alguma coisa e cremos nela, no fim ela passa a existir. Assim, aqueles modelos ideais, que a humanidade forma com os seus elementos mais evoluídos, servem-lhe para criar correntes psicológicas, que depois, pela longa repetição, cada vez mais são assimiladas e fixadas nas qualidades da estirpe. O que plasma a vida é a ideia, a qual precede e antecipa as suas formas futuras. Lança-se assim o pensamento no ignoto e nele se agarra como utopia, que é sem dúvida também esperança; assim o espera, o saboreia, o antecipa e finalmente nele se fixa como realização concreta. Mediante esse processo gradual de conquista, lentamente os ideais tornam-se realidade.

 

Morto o super-homem, permanece o seu modelo. Iniciada depois a corrente de psicologia coletiva, pelo consenso público das pessoas mais destacadas, reforçada pela adesão dos grupos dos sequazes e pela concordância instintiva de muitos, ela cresce por si, porque a imitação, meio pelo qual funcionam as multidões, se incumbe de fazer o resto. As coletividades pensam e agem por sintonia, por correntes. Vemos que cada indivíduo olha mais ou menos em redor de si, para ver como os outros fazem, porque acha que a verdade é decidida pelo que a maioria pensa e faz e que erra aquele que não age como a maioria. Cada indivíduo, mais ou menos, tem em grande monta a opinião pública, torna-se escravo do julgamento do próximo, tende sempre a mimetizar-se com a cor dominante e a seguir a correnteza, pois apenas nela se sente aprovado e seguro. Bem poucos têm autonomia de julgamento. As massas funcionam com a psicologia do rebanho.

 

Fizemos, assim, nestas páginas, a análise racional do ideal, da sua formação, desenvolvimento e função biológica, até à sua realização, conquanto esta pareça utopia. Quem tiver compreendido como esse jogo de forças opera na evolução da vida, não achará mais utópico falar do advento de um novo tipo de civilização no III milênio, ou seja, a realização na Terra do reino de Deus. Se aquele Reino corresponde a um anseio da alma humana, a um instinto da vida que aspira ao melhoramento, se este é o sonho de quem mais pensa e de quem mais sofre, como poderá tudo isso resolver-se no nada? Desde quantos milênios vem o homem dilacerado invocando que a justiça triunfe? O homem faz a guerra, mas anseia a paz, faz o mal, mas anseia o bem, odeia, mas está sedento de amor. Se existe esse desejo no fundo da alma humana, e daí faz pressão com tenacidade para realizar-se, e se ele também representa uma força da vida e um poder criador, como poderá tudo isso ficar sem efeito? O exame crítico que até aqui vimos fazendo, diz-nos que, mesmo falando apenas racionalmente, o fato de esperarmos uma nova civilização no III milênio não é sonho nem utopia.

 

Vimos a técnica usada pela vida para atingir essas formações. É toda ela o desenvolvimento de uma semente, isto é, de um estado de latência, da qual, parece, podem revelar-se todas as possibilidades. A existência não é só vontade de viver. É também e sobretudo vontade de evoluir. Na vida há uma Lei, que não é só pensamento que dirige, mas é também vontade que impõe a sua atuação. Vontade fundamental desta Lei é o evoluir, porque o universo caído “deve” voltar à perfeição de Deus. Por isso se vive, por isso a insaciabilidade no subir representa o instinto fundamental da vida. Indivíduos mais adiantados neste caminho seguem à frente, no caminho ascensional de todos. Inspira-os o pensamento da vida, a sua vontade impele-os e os ajuda. Com a técnica acima examinada, as multidões seguem, assimilam, avançam, e assim se cumpre a evolução.

 

Neste sentido, todos os tipos de super-homem são condutores de povos. No capítulo seguinte, ocupar-nos-emos sobretudo dos condutores políticos, fazendo a crítica do modelo que, em seu Príncipe, nos propõe Maquiavel como exemplo. Desenvolveremos assim o lado sombrio ou negativo do capítulo “o Chefe” de A Grande Síntese, capítulo que representa o lado luz ou positivo-afirmativo do problema. Só pode ser verdadeiramente chefe quem pertence ao biótipo do super-homem, que acima traçamos, ainda que não apresente os graus mais elevados. Não é necessário que seja um santo, um gênio ou um herói. Mas é sempre um pastor, com funções administrativas em parte, e sobretudo de ação. Mas é sempre a locomotiva de um trem, que arrasta atrás de si todo o comboio de um povo.

 

O Chefe é um condutor de massas, dentro dos limites de seu tempo, nação e função, atento especialmente a realizações práticas e imediatas. Mas, se bem que em dimensões mais reduzidas que o santo, gênio ou herói, deverá ser sempre um intérprete da história de seu tempo e um executor da vontade dela. É sempre um chefe, cujo pensamento chegará à atuação através da técnica acima examinada. Deve, portanto, saber como funciona a psicologia coletiva. É o conhecimento dessa técnica que lhe dará a chave do domínio sobre as multidões, indicando-lhe a que impulsos elas reagem. De modo que um homem com voz elevada afirme, de maneira a ser por todos ouvido, ideologias sãs – que sejam não apenas o produto de um só, mas produto do pensamento da vida, isto é, que estejam na linha do progresso e de acordo com as suas leis – esse homem deve forçosamente encontrar, no profundo do instinto da coletividade em que fala a vida, consenso geral e aceitação. Se o condutor tiver sabido compreender bem e aceitar o pensamento da história em relação ao seu tempo, ele não pode deixar de encontrar-se com o mesmo pensamento que aprova e sanciona a sua obra, falando-lhe não a ele diretamente, mas do mais fundo do instinto das massas. O segredo para obter a sua adesão está com efeito em procurar o que reclama o instinto vital delas. E esse instinto coletivo, se não é nem racional nem consciente, é intuição que não é de maneira nenhuma cega. O segredo do grande condutor de povos é tornar-se fiel instrumento da vontade da vida, no caso particular que ele dirige, para traduzir, com a ação, na realidade concreta, os imperativos da história, sabendo achá-los e lê-los nos lugares em que estão impressos, isto é, no pensamento dela, na linguagem dos acontecimentos, no subconsciente das massas. Elas sentem, mas não sabem exprimir o seu pensamento com palavras, e procuram um homem que o exprima e personifique para depois ajudá-las a traduzi-lo em ato. Enquanto o condutor que age só por diretivas de seu egoísmo pessoal, tentando forçar com elas a história e impô-las aos povos, tem poucas probabilidades de êxito, o condutor que enquadrando-se no movimento das forças que querem o progresso, faz de sua obra uma função biológica e de sua vida uma missão. Então, é também lógico que este homem, avançando pelos grandes caminhos da vida, tenha muito maior probabilidade de triunfar.

                      

Examinamos assim a função biológica do ideal e do super-homem, no caminho da história e na economia da vida, isto é, o lado luminoso, positivo e construtivo do problema. É assim o mundo, visto dos planos mais altos. Mas já observamos que cruel e feroz realidade biológica se aninha nos planos inferiores da animalidade humana, mentindo e torcendo a cada passo essas afirmações, e pondo empecilhos à sua realização. No próximo capítulo enfrentaremos em cheio outro tipo de condutor de homens, qual nos mostra Maquiavel em seu Príncipe, que é o super-homem no negativo, isto é, o herói do egoísmo, da violência e da bestialidade, o super-homem das virtudes às avessas, segundo o princípio satânico, como no-lo mostrou depois Nietzsche. Para que o nosso estudo seja positivo, resistente aos ataques da crítica, devemos nós mesmos prever todas as objeções que, partindo de indiscutíveis verificações de fato, tiradas da realidade da vida, estão bem armadas para demonstrar que o ideal é um absurdo inaplicável no mundo de hoje, nós mesmos temos que demonstrar que conhecemos bem estas verdades do mundo inferior, tomando-as como nosso ponto de partida, e elevando as nossas construções ideais justamente sobre aquele estado de fato, cuja verdade é uma realidade que só os ingênuos sonhadores podem desconhecer ou esquecer.

 

O defeito que é apontado a tantos idealistas, e que queremos evitar, é justamente o fato de não terem levado em conta essa realidade. As nossas afirmações, que parecem utopias a quem fica parado na superfície das coisas, podem e devem achar, numa lógica diversa, pertencente a planos mais elevados, e baseada em pontos de referência diferentes, à sua demonstração positiva e as suas bases seguras. Ao homem atual, que ignora o tremendo peso do imponderável, devemos mostrar a solidez desses novos pontos de apoio, que é tão grande como aquela em que ele tem tanta confiança, só porque está perto dela, e, portanto, ela a conhece bem, ao passo que os outros pontos lhe escapam quase por completo. A nossa é fé, mas quer ser uma crença férrea; é hoje antecipação utópica, mas quer ser antecipação positiva, controlada e calculada; o nosso é sonho, mas feito de olhos abertos, dando-se conta de todas as dificuldades que se opõem à sua realização.

 

Acredita o leitor que não conhecemos nós a ilimitada velhacaria humana?

 

E sabemos também que muitos sonhadores pouco positivos, prejudicaram mais do que ajudaram o progresso humano, por serem irrealizáveis os seus sonhos, mostrando com isto como o ideal é muitas vezes irrealizável.

 

Serviu assim a sua boa-fé pouco controlada para dar razão aos céticos. Sabemos bem que os nobres apelos à virtude, à religião, ao dever, ao sacrifício, à fraternidade, ao progresso, foram explorados com frequência por gente astuta, para satisfazer os seus próprios interesses e conseguir melhor lugar na vida. Conhecemos muito bem os truques de tantos pseudo-super-homens que se arvoram em condutores apenas para chegar às honras e ao bem-estar, que abraçam os próprios companheiros, amam os próprios prosélitos, apenas para deles fazer um pedestal ao seu poder, e depois os abandonam, após havê-los explorado apenas em sua exclusiva vantagem. Conhecemos tudo isso, e não nos iludimos, julgando que na vida acharemos homens diferentes. Esquecer os fatos e pedir o impossível é o que faz naufragar os ideais. Não queremos, pois, construir sobre o sonho, mas no terreno sólido da dura, ainda que hostil, realidade da vida.

 

Pretendemos uma coisa mais simples e mais positiva. Não contar de maneira nenhuma com a bondade dos homens, coisa muito rara para poder contar-se com ela, mas apenas com um pouco da sua inteligência, dado que, ao praticar o mal, eles demonstram possuí-la em grau elevado. Fazendo apelo apenas a essa inteligência, desejamos demonstrar-lhes a vantagem enorme, mesmo no sentido utilitário e egoístico, de fazer o bem aos outros, porque esse bem é também deles: demonstrar que há uma Lei que eles ignoram, pela qual, ajudar ao próximo é ajudar a todos, e, portanto, também a si mesmos; ensinar-lhes esse egoísmo mais vasto que, em seu próprio eu, compreende também o seu semelhante, pelo que, na vantagem dele, entra também a nossa vantagem. É um problema de lógica, é uma mecânica de forças, fatos que, claramente explicados não podem ser repelidos por uma inteligência normal. Se esta se rebelou até hoje a tantas exortações à virtude, foi porque se fez dessa virtude uma agressão à vida, algo que tenta sufocá-la e mutilá-la com renúncias que, por serem biologicamente contraproducentes, a própria vida procura repeli-las através do instinto. É mister reconhecer que a vida é utilitária e respeitar esse seu utilitarismo defensivo e protetor. Infelizmente, os pregadores de virtude muitas vezes a sustentam só em vantagem do próprio grupo e em dano dos demais. É natural então que o homem se rebele. A virtude deve engrandecer a vida, desenvolvê-la e não a sufocar. Deve transportá-la a planos mais altos para aumentá-la e dar-lhe potência, fazendo-a expandir-se e desenvolver. Então, encorajar, e não reprimir essa conquista, porque a vida só se pode mover pela conquista. Ai de quem se mantém exclusivamente no lado negativo e renunciador da virtude. É indispensável mostrar o lado expansionista da vida, porque é justo que só este atraia, dado que o homem é feito para crescer, subir, melhorar, e não para regredir. A marcha da vida é para a frente, não para trás. Aceite-se a virtude da renúncia e do sofrimento no sentido utilitário que a sabedoria da vida colocou em nosso instinto, isto é, em vista de uma mercê, que consiste na conquista, em termos de felicidade, de uma vida mais ampla, num plano mais alto.

 

Foram escritos muitos livros como este, que pregam belas coisas. Mas aqui oferecemos uma coisa nova:   a demonstração racional da vantagem de fazer o bem, assim como o grave dano pessoal de fazer o mal. Oferecemos, pois, ao leitor sábio, de um lado, a perspectiva real de uma vantagem e do outro, de um dano para si. Conhecemos o homem e sabemos que estas são as únicas molas que o movem, os únicos impulsos a que obedece. Sabemos que estes livros, que falam de belos ideais, são depois explorados por homens camuflados de idealistas, para seus interesses. Muitas vezes aconteceu isto, e poderá ocorrê-lo também com este volume e com os demais da nossa obra. Mas podemos advertir a esses, que nossos princípios se baseiam na presença demonstrada de uma Lei, de cujas reações não há distância de tempo nem de espaço, nem força ou astúcia que os possa salvar, se a violarem. Nós só possuímos as armas do amor e da inteligência, próprias aos planos superiores. Avisamos, porém, que, contra os transgressores da Lei, há uma polícia do imponderável, armado com reações fatais das quais não se escapa. Nós, que não temos poder algum e nem o direito de julgar quem o mereça ou não, queremos apenas mostrar aos cegos como funciona a Lei e com que terríveis consequências pode ela golpear-nos se o merecemos, pouco importando se nela não cremos e se dizemos que nada disso é verdadeiro.

 

Os ideais fazem parte dos equilíbrios da vida e quem os renega ou os trai ou os explora, vai de encontro à vida e a vida irá contra ele. Não dizemos que a triste realidade biológica da bestialidade humana não seja verdadeira. Mas sabemos que, ao lado dessa verdade, há também a verdade mais alta dos ideais, que esta faz pressão para realizar-se a luta, para vencer e sobrepujar a outra triste realidade biológica. Ao lado do estado involuído do homem, em que se baseiam os negadores do ideal, há uma realidade igualmente positiva, que é a lei do progresso. Se o homem ainda está atrasado, permanece sempre a evolução como justificação de seu existir, de seu lutar, de seu sofrer; permanece ela sempre a meta de sua vida. O pensador equilibrado não deve ser apenas um idealista que perde contato com a realidade, nem um positivista negador de qualquer idealismo. A realidade e a ideia são os dois extremos de nosso caminho evolutivo, são o hoje e o amanhã de nossa vida, são os dois polos de nosso mundo, entre os quais oscilam e se realizam todos os nossos movimentos. Isolar-nos em qualquer dos dois, é afastar-nos da verdade e ficar mutilados numa visão unilateral. Só quem se colocou no meio dos dois extremos, pode vê-los e avaliá-los ambos ao mesmo tempo, isto é, observar o céu em função da Terra e a Terra em função do céu. Só ele pode dizer aos sonhadores do ideal: cuidado, que a Terra é bem diferente, e é difícil fazer descer a ela tanta beleza. Só ele pode dizer aos homens práticos do mundo: cuidado, que acima da Terra há o céu, sem o qual não pode a Terra viver; cuidado que, além do presente, há o amanhã, em cuja direção forçosamente tudo há de caminhar-se, e sem o qual o presente não teria significação.

 

Sabemos bem que a realização do ideal é árdua. Mas isso não quer dizer que ele não é coisa verdadeira. Os maiores homens da humanidade lutaram e muitas vezes morreram só por isso. Não o conseguiram, dir-se-á, mas a humanidade, mesmo não os imitando, admira-os e venera-os. O homem é animal, mas, no entanto, tem fome de subir. O animal tem vergonha de o ser, e aspira a tornar-se anjo. Subir é a lei, a primeira paixão, o máximo impulso da vida. Dir-se-á: mas os dois milênios de cristianismo também poderiam chamar-se dois milênios de exploração de Cristo, com outras finalidades, ao passo que o homem permaneceu mais ou menos o mesmo. Dir-se-á que os ideais parecem que servem na terra para não serem postos em prática, mas só para serem pregados e explorados, em vantagem de alguns homens ladinos, que os utilizam como uma bandeira, com a qual possam cobrir melhor o próprio jogo, que é conseguir um lugar melhor na vida. Parece que na Terra as verdades superiores só podem aparecer sob a forma de mentira. E se houver algum idealista, os seus escritos e trabalhos servem apenas para melhor enganar o próximo, cuja boa-fé é mais facilmente conquistada, quando se fala em nome de um ideal que dê maior garantia de honestidade.

 

Estes livros, também, especialmente depois de morto e colocado definitivamente sob silêncio o seu Autor terreno, correm esse perigo, podendo ser utilizados quem sabe por quem e quem sabe para que fins. Mas, justamente por isso, procuramos colocar-nos em contato com a dura realidade da vida, denunciando todas as suas traições, demonstrando conhecê-las e trabalhando em seu próprio terreno. Quisemos dar-nos bem conta da grande distância entre a vida real e os princípios ideais. Não quisemos iludir-nos com o otimismo dos homens levianos. Quisemos dar-nos conta objetivamente de que estamos construindo sobre a lama, para concluir, que, no entanto, é fatal avançar e o mundo avançará. Quisemos nós mesmos, em primeiro lugar, procurar demolir a nossa fé, para que dela permanecesse apenas o que tem a solidez do ferro. Quisemos reconhecer todos os vícios e defeitos do homem, fazendo-nos céticos até ao fundo, para sairmos mais aguerridos de um tal banho de ceticismo. E então, o que resta do ideal, não é mais uma fantasia fácil de mente leviana, mas, no terreno do imponderável, adquire a evidência da luz e a solidez da pedra. É assim, e só assim se poderia chegar a conjugar a verdade bestial de Maquiavel com os mais altos ideais do espírito, como dois momentos bem compreensíveis, dado que logicamente conexos, de uma mesma verdade em evolução.

 

Reconhece-se assim que o poder devia ser missão, mas que no entanto, dado que a vida de hoje exige uma compensação, é natural que o homem, que se esforçou para chegar, sinta o direito de gozar, na posição conquistada, o fruto do seu esforço. Ele não pode então ocupar-se do bem do povo, mas só de seu bem, dado que o povo faz o mesmo com ele, e a lei de exploração é universal. Mas também se reconhece que, à força de abusar e errar, e, portanto, de pagar, o homem tem por fim que aprender, ainda que à sua custa e, aprendendo, tem que evolver, isto é, caminhar para a realização do ideal. Já é mais do que sabido, agora, o velho sistema de que os ideais são pregados com o fito de exploração. Mas, se um interesse não houvera, quem faria alguma coisa no mundo? Não se pode pretender que a vida não seja utilitária. Preciso é reconhecer-lhe esse direito, que está na sua lógica e em seus equilíbrios. O que é preciso é apenas passar a um utilitarismo mais inteligente e mais universal, que não constitua dano para ninguém e seja vantagem para cada vez maior número de pessoas.

 

Não se pode demolir o velho com a agressão, para destruí-lo, pois tudo o que existe quer viver e, se for agredido, reage. O que é preciso, é transformar o velho fazendo-o evoluir. Não se pode pretender sufocar a vida, nem se devem utilizar os princípios ideais para esmagar o próximo, para vencê-lo na luta pela vida, e para substituir-se a ele em posições vantajosas. Ao pedir-se duros sacrifícios à natureza humana, em favor da evolução, é preciso ter em conta que ela deve também viver, e não pode ficar sufocada. E, infelizmente, muitas vezes se estabelece a tábua de valores só em função da própria utilidade, e com frequência a pregação dos ideais se faz apenas em favor próprio, para a vitória dos interesses da própria casta. É indispensável recordar que a luta pela vida invade e penetra tudo no mundo, e portanto, se quisermos obter e construir com justiça - e então em forma durável, porque equilibrada, isto é, sem as inevitáveis reações, teremos que levar em conta o direito à vida que existe também do lado oposto, essa vida que às vezes queremos esmagar em nome de virtudes, que naturalmente supomos dever existir antes nos outros que em nós. Se tantos ótimos princípios são infelizmente sustentados no mundo, por vezes calorosamente, isto acontece, porque o homem conseguiu transformá-los em armas de ataque contra o próximo, na luta pela vida.

 

O nosso mundo assenta mais sobre sistemas do que sobre o indivíduo. Talvez tenha decaído a tal ponto a fé no valor do homem, que ela se reduziu a ter que prescindir dele, confiando só na perfeição do sistema, que deveria sanar tudo. Talvez tenha chegado o orgulho humano ao ponto de crer que uma organização perfeita e um sistema de normas, podem suprir a má qualidade da matéria prima, que é o homem. É também verdade que o sistema pode ser uma escola para fazer o homem, como, por exemplo, o sistema representativo pode servir para ensinar a saber votar, formando, através de duras provas, uma consciência coletiva política. Mas é também verdade que, enquanto o homem não tiver aprendido, o sistema não poderá suprir os erros dele. Dizia Giuseppe Mazzini, nos Deveres do homem: Os homens bons tornam boas as más organizações, e os maus tornam más as boas.

 

Acredita-se hoje que se possa melhorar, alegando direitos. Não. Só se pode progredir através do esforço de cada um. E assim, através dos séculos, como é diferente da de Maquiavel a resposta de Mazzini: (...) nada conseguireis senão melhorando; não conquistareis o exercício de vosso direito, senão merecendo-o com o sacrifício, com a atividade, com o amor. Se procurardes, em nome de um dever cumprido ou a cumprir, obtereis; se procurardes em nome do egoísmo, em nome de não sei que direito ao bem-estar, que vos ensinam os homens do materialismo, só conseguireis triunfos de uma hora, seguidos por tremendas desilusões. Os que vos falam em nome do bem-estar, da felicidade material, vos trairão. Também eles procuram o seu bem-estar; se confraternizam convosco, como com um elemento de força, enquanto têm obstáculos a superar, para conquistá-lo, logo que o consigam com vosso auxílio, vos abandonarão, para tranquilamente gozar a sua conquista. Esta é a história do último meio século e se chama Materialismo. Isto escrevia Mazzini em 1860, e é também hoje absolutamente verdadeiro. E conclui: (...) o materialismo arrasta-vos inevitavelmente, com o culto dos interesses, ao egoísmo e à anarquia. É assim que o materialismo ameaça levar o mundo à destruição, com o fim da civilização europeia.

 

Nos capítulos do Apocalipse, no volume: Profecias, vimos como o mundo vive debaixo de grandes ameaças, numa era de destrucionismo. Mas é uma destruição que consiste apenas numa condição de melhor reconstrução. Em sua sábia economia, é só com essa condição que a vida destrói. Depois de nos termos ocupado alhures especialmente do fim do mundo velho, ocupar-nos-emos aqui dos princípios sobre os quais terá que ser reconstruído o novo. O contraste que o leitor encontra neste volume, entre a realidade biológica e o ideal, em luta, entre o velho que rui e o novo que nasce, entre as trevas e a luz que deve vencê-las, é apenas o espelho do que está hoje acontecendo no mundo, nesta hora apocalíptica, em que atingimos a plenitude dos tempos…

FONTE:

Pietro Ubaldi