quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

O AMIGO IMPORTUNO - O JUIZ INIQUO E A VIUVA IMPORTUNA

 

O AMIGO IMPORTUNO - O JUIZ INIQUO E A VIUVA IMPORTUNA

(Lc 11:5,8 –“disse-lhe ainda: quem entre vós se tiver um amigo e for procura-lo no meio da noite dizendo. Meu amigo empresta-me três pães, porque chegou de viajem um dos meus amigos e nada tenho a lhe oferecer, e ele respondeu de dentro: não me importunes; a porta já está fechada e meu filho e eu estamos na cama, não posso levantar, digo-vos mesmo que não se levante para dá-los por ser amigo, levantar-se-á ao menos por causa da sua insistência e lhe dará tudo aquilo de que precisa”). Vai ter com ele, à meia-noite, com o pedido: Amigo, empresta-me três pães;

Fez-Ihes ver, numa parábola, que importa orar sempre, e não desfalecer. Disse: “Vivia numa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava homem algum. Havia na mesma cidade uma viúva. Foi ter com ele e disse-lhe: Reivindica os meus direitos contra meu adversário. Negou-se ele a atendê-la por muito tempo. No fim de contas, porém, disse consigo mesmo: Verdade é que não temo a Deus nem respeito homem algum; mas essa viúva tanto me importuna que lhe farei justiça, para que não acabe por meter-me as mãos na cara”.

(Lc 18:1,8-“cotou-lhes ainda uma parábola para mostrar a necessidade de orar sempre sem jamais esmorecer. Havia numa cidade um juiz que não temia a deu e não tinha consideração para com os homens. Nessa mesma cidade havia uma viúva que vinha a ele dizendo: Faz-me justiça contra meu adversário! Durante muito tempo ele se recusou. Depois pensou consigo mesmo. Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, contudo, já que essa viúva está me dando fastio, vou fazer-lhe justiça, para que não venha por fim esbofetear-me”. Escutai o que diz esse juiz iniquo; e Deus não faria justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite mesmo que os faça esperar? Digo-lhes que lhe fará justiça muito em breve. Mas quando o Filho do homem voltar encontrara a fé sobre a Terra?)

Prosseguiu o Senhor: “Escutai o que diz o juiz iníquo! E Deus não faria justiça a seus eleitos, quando, dia e noite, clamaram a ele? Deixá-los-ia esperar muito tempo? Digo-vos que bem depressa Ihes fará justiça. Entretanto, quando o Filho do Homem vier, encontrará fé sobre a terra? ”

É necessário pedir com insistência a fim de crear na alma um ambiente de receptividade Nestas duas parábolas geminadas insiste Jesus na mesma ideia: orai sempre e nunca deixeis de orar.

À primeira vista parece estranho, e quase paradoxal, esta insistência no orar, pedir, buscar, bater.

“Pedi, e recebereis; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á... Tudo que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo dará... Orai, e nunca deixeis de orar”.

Na parábola do amigo importuno e do juiz iníquo, essa insistência chega quase às raias da impertinência. Imaginem! Um homem, altas horas da noite, vai à casa de um amigo, bate ruidosamente à porta e lhe diz: “Amigo, empresta-me três pães; porque um amigo meu chegou de viagem à minha casa, e não tenho o que servir-lhe”. Mas o de dentro lhe responde, sem se levantar: “Não me incomodes!

A porta está fechada e meus filhos estão comigo no quarto; não posso levantar-me para atender-te. ” Mas o de fora, teimoso, continua a bater e a insistir no pedido. Finalmente o de dentro se levanta e dá o que o outro pede, não por ser seu amigo, mas para se ver livre da importunação e poder dormir.

E Jesus acrescenta que é assim que o homem deve pedir a Deus.

Na outra parábola, conta o Mestre a história de uma pobre viúva explorada por um ricaço prepotente. Ela vai ter com o juiz e insiste: “Faze-me justiça contra meu adversário”. O juiz, porém, que “não teme a Deus nem respeita homem algum”, não quer atendê-Ia. Já que a primeira parábola tem caráter humorístico, vamos deter-nos um pouco neste aspecto: esse homem que, altas horas da noite, vem pedir três pães para servir a um amigo deve ter sido um asceta, ou então um solteirão impenitente.

Mora sozinho. Não tem em casa um bocado de pão. O outro pede logo três pães, por sinal que o viajante está esfaimado. O outro diz que está no seu quarto com seus filhos. Não fala em mulher. Possivelmente, segundo o costume de certos países, os meninos dormiam com o pai e as meninas dormiam com a mãe; e o quarto do marido ficava logo na entrada da casa, para a rua. Ou não existia ainda esse móvel vergonhoso chamado cama de casal.

Na outra parábola, a viúva continua a insistir, a tal ponto que, por fim, o juiz resolve atendê-Ia, não por causa dela, mas, como diz pitorescamente o texto sacro, “para que, afinal de contas, ela não acabe por meter-me as mãos na cara”.

Muitos tradutores não têm a coragem de traduzir ao pé da letra o que dizem tanto o texto grego do original como também a tradução latina, e amenizam o tópico dizendo “para que não venha molestar-me”, como se não o estivesse molestando há tanto tempo.

Como no caso do amigo importuno, a insistência no pedir culmina numa situação hilariante. Tanto o homem em plena noite como também o juiz atende, finalmente, ao pedido, obrigados pela importunação dos pedintes.

Sendo que toda parábola, como já foi dito, se compõe invariavelmente, de um símbolo material e de um simbolizado espiritual, é evidente que o motivo material e egoísta dos dois importunados não tem cabimento no simbolizado espiritual; Deus não pode sentir-se importunado por nossos pedidos, nem nos atende para se ver livre da nossa importunação. Essas comparações ilustram drasticamente a ideia central da parábola: o homem deve orar, pedir, buscar, bater tão impetuosamente como se incomodasse a Deus com as suas insistências, como se Deus fosse obrigado, quase forçado, a atendê-lo para se ver livre da suposta importunação do pedinte. Jesus sentiu a necessidade de exagerar hiperbolicamente a atitude do pedinte a fim de dar ênfase à absoluta necessidade do pedir, orar, buscar, bater.

Mas, agora perguntamos: por que essa necessidade de pedir, se Deus é onisciente, e sabe perfeitamente de que necessitamos, mesmo antes despedirmos a Ele? Em outra ocasião, o próprio Mestre afirma explicitamente que “vosso Pai celeste sabe de que haveis mister, mesmo antes de lho pedirdes”.

E apesar desta declaração categórica; continua Jesus a repetir que é necessário pedir sempre, e nunca deixar de pedir.

Essa atitude humana não pode ter por fim lembrar a Deus que necessitamos disto e daquilo, como se Deus pudesse esquecer-se de nós ou ignorar as nossas necessidades de cada dia. A finalidade do pedido ou da oração é,

evidentemente, outra. A finalidade é crear em nós mesmos uma atitude tal que Deus nos possa atender, pois só “quando o discípulo está pronto o Mestre aparece”.

As eternas leis cósmicas ou divinas funcionam com infalível precisão, com uma matemática absoluta, e não podem jamais deixar de funcionar. Mas elas só podem funcionar onde há um ambiente propício para seu funcionamento. Na natureza extra-hominal essas leis funcionam automaticamente, porque o ambiente propício sempre existe, graças à mecanicidade das leis da natureza. O Sol sempre nascerá no Oriente e se porá no Ocidente, sem adiantar nem atrasar um único segundo. A planta sempre florescerá e frutificará segundo as suas leis intrínsecas e infalíveis.

No mundo hominal, porém, podem existir ou não existir as circunstâncias para o funcionamento ou não funcionamento das leis cósmicas. O homem pode possibilitar ou impossibilitar, em sua pessoa, o funcionamento das leis de Deus.

Onde impera o livre-arbítrio, nada é previsível. Deus quer dar ao homem os bens que em Deus estão, mas o homem pode obstruir o seu recipiente humano e não receber o dom do doador divino, e pode também abrir e alargar o seu recipiente ao ponto de receber em maior medida a dádiva divina. O recipiente humano, como se vê, é muito elástico, estreitável e alargável.

O pedir, orar, buscar, bater, têm por fim alargar cada vez mais o recipiente humano.

O velho adágio filosófico “o recebido está no recipiente segundo a capacidade do recipiente” ilustra bem esta verdade. Todo finito recebe do Infinito aquilo que corresponde à medida maior ou menor da sua finitude. Se a capacidade do finito for igual a 10, o recipiente receberá 10; se for igual a 50, receberá 50; se for iguala 100, receberá 100. Quem vai ao oceano com um copo, colherá um copo de agua salgada; quem vai com um litro, colherá um litro; quem vai com um balde, colherá um balde – não por causa do oceano, mas por causa da capacidade do copo, do litro e do balde.

Para receber da Infinita Plenitude, deve o homem finito ampliar a sua finitude, que tem muitos graus, mas cuja potencialidade pode ser aumentada por seu livre-arbítrio.

A ordem de orar, pedir, buscar, bater, nada tem de ver com Deus; tem de ver unicamente com o homem.

Suponhamos que alguém esteja, em pleno meio-dia, numa sala totalmente às escuras, de janelas fechadas. Para que entre luz solar não é necessário dirigir-se ao Sol, ou pedir que ele mande seus raios nesta direção; basta abrir uma janela na direção do Sol, abri-la pouco para receber pouco Sol, abri-la muito para receber muito Sol.

Uma planta volta suas folhas ao Sol para receber luz e calor e poder crescer, florescer e frutificar – mas o Sol não é afetado por nada disto.

O livre-arbítrio do homem é o seu maior privilégio – e também o seu maior perigo.

O uso ou falta de uso da sua liberdade torna o homem melhor ou pior. Pelo livre-arbítrio é o homem o seu próprio Deus – e também o seu anti-Deus, o creador do seu céu ou do seu inferno.

O destino cósmico depende de Deus somente – mas o destino humano depende do homem, não na zona independente do livre-arbítrio, mas na zona da sua liberdade. As circunstâncias externas podem, sem dúvida, facilitar ou dificultar o exercício do livre-arbítrio – mas nenhuma circunstância me pode obrigar a ser bom, nem a ser mau.

Resumindo, podemos afirmar que estas duas parábolas, do amigo importuno e do juiz iníquo, são uma verdadeira apoteose do livre-arbítrio humano.

FONTE:

Huberto Rodhen

Bíblia de Jerusalém

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