sexta-feira, 16 de outubro de 2020

ESTUDO DA OBRA DE HUIBERTO RODHEN

 

CADA UM PARA TODOS POR TODOS E TODOS PARA CADA UM

Sinto que há em mim uma luz...

Realmente há muitas moradas, na casa do Pai Celeste;

Muitos planos de vivencia há, no universo de Deus...

E eu me sinto feliz viajor nessa jornada cósmica;

Jubiloso peregrino do infinito, demandando a luz da vida eterna, através de inúmeras mortes efêmeras...

Todo ano, dia a dia, operam-se nos reinos da natureza milhares de ressurreições...

Minúsculo grãozinho de semente, após longa e silente hibernação, surge aos fulgores da vida real...

Como é isto possível?... Possível é porque a invisível alma do cosmos, individualizada no pequenino germe, possui a estupenda virtude de arquitetar a viridante maravilha do organismo vegetal...

E não poderia Deus fazer sem a natureza o que faz perenemente por meio dela?...

Acendem-se, no macrocosmo sidéreo, legiões de astros, extinguem-se, reacendem-se com todas as graduações de fulgores – e não poderia o macrocosmo do corpo humano, recompor-se e brilhar em vida nova?... Quem crê na Onipotência de Deus, não pode descrer da transformação do corpo...

Transformação do corpo material em imaterial.

Feliz de mim, se eu for janela aberta, que permita visão de horizontes longínquos, passagem franca para o Infinito!

Não sou mestre de ninguém, ninguém é meu discípulo!

Indico a todos o Mestre invisível, que habita na alma de cada um e para além de todos os mundos.

Sinto-me feliz, quando o viajor, orientado pela legenda da minha seta, me abandona e vai em demanda da indigitada meta m espontânea liberdade,

Rumo à longínqua felicidade...

 

“Eu”, (que é luz), é inofendível, ao passo que o ego, que ainda é como água (se contamina), é ofendível. Quanto mais ofendível alguém é, tanto mais ele é ego — e quanto mais inofendível alguém é tanto mais “ele é”. “Eu”. O ego sofre de ofendismo crônico, e, não raro, de ofendite aguda. E, o que é mais estranho, muitas vezes o ego se sente ofendido, mesmo quando não há ofensor — ele inventa pseudo-ofensas.

Quem se sente ofendido confessa que se acha no mesmo plano do “ofensor”; quem não se sente ofendido, está num plano acima do “ofensor”.

A lei de Moisés manda vingar a ofensa — "olho por olho, dente por dente". Certos teólogos mandam perdoar a ofensa. Mas, tanto o vingador como o perdoador provam que ainda está no plano inferior do ego idade, uma vez que somente o ego é ofendível.

Melhor do que vingar ou perdoar é desligar-se, ultrapassar a horizontal do ego ofendível e subir para a vertical do Eu inofendível. Mahatma Gandhi, pelo fim da vida, foi perguntado se havia perdoado todas as injustiças a seus inimigos, e respondeu “não”, porque nunca ninguém o ofendera. Esta resposta prova que ele já não se achava no plano do ego ofendível, mas sim nas alturas do Eu inofendível.

No texto sacro, o sentido exato da palavra tradicional "perdoar" significa libertar, desligar, soltar, não se sentir credor de ninguém nem considerar alguém seu devedor.

Vamos dizer umas poucas palavras sobre um assunto de imensa importância em nossos dias: a meditação.

A palavra não é exata, mas ela é a mais usada e a mais conhecida. Devia ser antes contemplação. Quando o homem entra em meditação, ou melhor, em contemplação, ultrapassa ele a zona da sua consciência habitual, do seu ego consciente, e entra na zona ignota do seu eu supra consciente, pleniconsciente. Para além de toda concentração mental e para além mesmo da meditação espiritual começa este mundo misterioso da contemplação intuitiva que os orientais chamam samadi e que nós costumamos chamar êxtase. Esta palavra êxtase – palavra grega composta de ek- stasis, quer dizer literalmente, posição fora de si, isto é, uma atitude fora do ego habitual consciente. Uma invasão do mundo espiritual supra consciente.

Quando o homem medita deve ao menos no princípio, impor silêncio, tanto às sensações do corpo, como aos pensamentos do intelecto. Meditação não é leitura espiritual, não é estudo, não é análise de textos sacros. Meditar é focalizar a consciência espiritual em Deus. Colocar a alma bem dentro da luz divina e deixá-la imóvel, no meio dessa irradiação, como uma planta colocada em plena luz solar, com as mãozinhas das verdes folhas erguidas ao céu, em silenciosa prece ao astro benéfico que tudo opera na planta: vida, beleza, alegria, contanto que esta seja devidamente receptiva e heliotrópica.

De fato, a alma do orante é antes objeto que sujeito, pois não é ela propriamente que faz aquilo que está acontecendo. É Deus que o faz nela, por ela, para ela. Basta que a alma do orante seja receptiva para as maravilhas divinas que nela são produzidas, durante essa intensa e silenciosa diatermia celeste, essa gloriosa passividade dinâmica.

LUGAR E TEMPO:

É necessário que o homem escolha, para meditação, ou contemplação, tempo e lugar apropriados. Seria erro funesto, por exemplo, querer dedicar a essa ocupação importantíssima a pior meia-hora das 24 horas do dia; talvez o período depois dos trabalhos profissionais, quando corpo, a mente e a alma estão derreados de fadiga e suspiram por um pouco de repouso. É necessário reservar para comunhão com Deus a melhor meia-hora ou mesmo uma hora do dia, quando todas as faculdades do homem estejam em perfeita calma e equilíbrio; porquanto a meditação bem-feita não é algum doce e indolente devaneio, semissonâmbulo, mas é, pelo menos no princípio, um trabalho pesado, que reclama todas as energias do nosso ser.

Nem convém meditar num lugar onde se possa ser facilmente perturbado. Quem não encontrar em casa um cantinho sossegado e não devassável, fará bem em procurá-lo fora de casa, em plena natureza, ou então na doce penumbra de alguma igreja aberta, onde à sombra duma coluna, encontrará facilmente o ambiente desejado e seguro contra incursões indébitas.

Há nas 24 horas do dia, dois períodos especialmente favoráveis à meditação: um de manhã e outro à noite. A treva ou a semiluz são, geralmente propícias à meditação. Luz ligeiramente azulada ou esverdeada é preferível a outras tonalidades.

ATITUDE CORPÓREA:

Devido à íntima correlação que vigora entre corpo e alma, é de suma conveniência que, enquanto a alma se entrega à meditação, o corpo mantenha uma atitude compatível com essa atividade espiritual. A melhor posição do corpo, durante a meditação, é a de sentado naturalmente, se possível em cadeira de assento duro e encosto vertical. A espinha dorsal assume atitude ereta, normal; as pernas, não cruzadas, ficam em posição espontânea, formando ângulo reto na junção com o corpo e nos joelhos; as mãos, de palmas para cima, pousam naturalmente no regaço ou sobre as coxas, junto ao corpo; os olhos conservam-se ligeiramente fechados - tudo isto, que aos inexperientes talvez pareça arbitrário ou artificial, é perfeitamente natural e espontâneo para quem, de fato, se acha imerso em profunda comunhão com Deus.

* * *

A meditação quando praticada por muito tempo, resolve todos os problemas dolorosos da vida humana. Isto é infalível.

O homem sentirá pouco a pouco, firmeza e segurança, paz e tranquilidade, e uma profunda e permanente felicidade. Todos os problemas dolorosos da vida serão resolvidos, depois de alguém se habituar a uma profunda e verdadeira cosmo meditação.

 

Cada um para todos por todos e todos para cada um

Do mesmo modo que o corpo é um só, mas tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar da sua multiplicidade, formam um só espírito; assim também acontece com Cristo. Todos nós fomos, por um só capitulo, unidos num só corpo – judeus e gentios, escravos e livres – todos fomos imbuídos de um, só espirito, pois também o corpo não consta de um só membro, senão de muitos. E, se o pé dissesse: ” porque não sou mão, não pertenço ao corpo”, nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. Se o corpo fosse todo vista, onde ficaria o ouvido? E, se fosse todo ouvido, onde ficaria o olfato? Deus marcou a cada membro sua função no corpo, segundo sua vontade. São muitos os membros e órgãos, mas só é um o corpo.

Ora, nós somos o corpo do Cristo, e, cada um da sua parte membro dele.

Cada um de nós precisa dos outros.

Cada um precisa de todos – e todos precisam de cada um...

A prosperidade do Todo depende do trabalho perfeito de cada fator individual – e a felicidade desse fator está na colaboração harmônica do conjunto.

É necessária a diversidade das funções para a unidade do ser.

Vida perfeita só resulta da ação convergente de numerosos órgãos, membros e unidades vitais – e quanto mais alta na escala dos seres se acha a vida, quanto mais diferenciadas suas funções vitais, tanto mais estreitas devem ser a harmonia e solidariedade dos componentes desse organismo superior.

Membros do corpo místico de Jesus, trabalhai fraternalmente, sob a direção do espírito do Cristo!...

* * *

Nas Notas explicativas da tradução de sua tradução do Novo Testamento Rohden escreve:

"Dissera o apóstolo que não obstante a multiplicidade dos dons Divinos, um só é o Espírito Santo, autor deles; e passa a mostrar esta verdade por meio de um paralelo tirado do corpo humano: assim como cada membro do corpo e cada órgão têm a sua função peculiar, ainda que todos tenham por princípio um e o mesmo espírito (a Alma) que dirige a um fim harmônico as diversas partes e suas atividades – de modo análogo acontece também na igreja de Deus".

A revelação do reino de deus se d´[a diariamente nas almas capazes de recebe-la

O reino do Cristo”- escreve Frederic Sanders no seu livro In The Power of The Infinite:

O reino do Cristo não jaz em alguma região longínqua; o reino de Deus não é condicionado por tempo e espaço. Muitos pensam que a vida terrestre com o seu sofrimento e as suas angústias, seja um estágio preliminar para a vida eterna e que o homem deva suportar as misérias desta vida até que soe a hora da libertação. Entretanto o reino dos céus ficará distante enquanto nós o considerarmos distante. E, contudo, é agora mesmo que vivemos no reino de Deus, e não há nenhum outro mundo. Somente o nosso consciente obscurecido é que nos torna cegos para as glórias do mundo espiritual, no qual vivemos. O homem, que tem a permanente consciência da presença de Deus, vive agora mesmo na harmonia do seu reino, numa atitude interna inatingível pelas vicissitudes dos fenômenos externos.

Não podemos descrever a um surdo as belezas da música, nem podemos dar a um cego, ideia das cores- e da mesma forma não podemos fazer compreender as glórias do reino do Cristo a um incrédulo que não as tenha experimentado pessoalmente. Da cadeia e do alcance dos seus próprios pensamentos tece o homem dia a dia o seu céu e o seu inferno.

Céu e inferno não são estados futuros que nos esperem depois da morte. A morte não modifica em nada o estado do homem; e os chamados mortos não estão mais perto de Deus do que os vivos. A morte não representa a transição para um estado perfeito e definitivo. A disposição do espírito de um defunto continua a ser a mesma após morte que foi durante a vida terrestre.

A revelação do reino de Deus se dá diariamente nas almas capazes de recebê-la; e cada pensamento espiritual acelera o advento universal do reino de Deus sobre a face da terra”.

Resumo do estudo feito pela obra do filosofo Huberto Rodhen

Lembrando Gandhi

Em 1939 – oito anos depois da declaração de independência da Índia e nove anos antes da morte de Gandhi – disse Einstein:

“um condutor de seu povo, não apoiado em qualquer autoridade, um político cuja vitória não se baseia em astucias, nem técnicas de política profissional, mas unicamente na convicção dinâmica da sua personalidade; um homem e sabedoria e humildade dotado de invencível perseverança, que empenha todas as suas forças para garantir a seu povo uma sorte melhor; um homem que enfrenta a brutalidade da Inglaterra com a dignidade de um homem simples, e por isso se tornou um homem superior – futuras gerações dificilmente compreenderão que tenha vivido na terra, em carne e osso, um homem como este “.

Possivelmente, daqui a alguns séculos, os homens dirão: Gandhi foi um mito, e não uma personalidade humana – como disseram de Moises, de jesus e de outros gênios avançados da humanidade.

 

 

 

 

FONTE:

Huberto Rodhen seus livros, suas palestras

 

domingo, 4 de outubro de 2020

PERISPÍRITO

 

PERISPÍRITO

Períspirito (do gr. peri, em tomo. e do lat. spirítus. Alma, espírito) é o envoltório sutil e perene da alma que possibilita sua interação com os meios espiritual e físico.

A palavra foi empregada pela primeira vez por KARDEC, na questão 93 de "O Livro dos Espíritos"(“"O Espírito, propriamente dito, nenhuma cobertura tem, ou, como pretendem alguns, está sempre envolto numa substância qualquer?"

— "Envolve-o uma substância, vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante grosseira para nós; assaz vaporosa, entretanto, para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se aonde queira."

"Envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma; do mesmo modo, uma substância que, por comparação, se pode chamar períspirito, serve de envoltório ao Espírito propriamente dito).

Mais tarde, os Espíritos Instrutores, endossando a designação, passaram a empregá-la regularmente a denominação baseia-se na forma com que se apresenta esse complexo fluídico, envolvendo a alma.

Outras denominações conhecidas referem-se mais à sua natureza ou funções.

Assim, ANDRÉ LUIZ, por Francisco Cândido XAVIER, chama-o de psicossoma e, também, corpo espiritual - lembrando, aliás, a designação de PAULO, em sua primeira epístola aos Coríntios (15:44 –“ semeado corpo Psíquico ressuscita corpo espiritual”).

Hoje, os autores dão aos três termos - períspirito, corpo espiritual e psicossoma - o mesmo sentido.

Alma e períspirito constituem um todo indissolúvel. Conforme esclarece KARDEC, alma e períspirito "constituem o ser chamado Espírito?'

"A alma é, pois, um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo.

Há, assim, diferenças de significado, embora seja comum o emprego das duas palavras - alma e Espírito - como sinônimas.

Por isso, anota KARDEC: "Seria mais exato reservar a palavra alma para designar o princípio inteligente e o termo Espírito para o ser sem imaterial formado desse princípio e do corpo fluídico; mas, como não se pode conceber o princípio inteligente isolado da matéria, nem o períspirito sem ser animado pelo princípio inteligente, as palavras alma e Espírito são, no uso, indiferentemente empregadas uma pela outra (...); filosoficamente, porém, é essencial fazer-se a diferença.”. E Leon DENIS observa: "Chamamos Espírito à alma revestida do seu corpo fluídico. A alma é o centro de vida do períspirito, como este é o centro de vida do organismo físico. Ela que sente, pensa e quer; o corpo físico constitui, com o corpo fluídico, o duplo organismo por cujo intermédio ela atua no mundo da mateia.

Em outro local, especifica: "O homem (...) é um ser complexo. Nele se combinam três elementos para formar uma unidade viva, a saber: O corpo, envoltório material temporário, que abandonamos na morte, como vestuário usado; O períspirito, invólucro fluídico permanente, invisível aos nossos sentidos naturais, que acompanha a alma em sua evolução infinita, e com ela se melhora e purifica; A alma, princípio inteligente, centro da força, foco da consciência e da personalidade (centelha divina da criação).

A alma desprendida do corpo material e revestida do seu invólucro sutil, constitui o Espírito, ser fluídico, de forma humana, liberto das necessidades terrestres, invisível e impalpável em seu estado normal." Embora os estudos sobre o períspirito tenham sido sistematizados só a partir de KARDEC, tem sido ele percebido desde épocas imemoriais, recebendo as mais diversas denominações no curso do tempo:

mano-maya-kosha (na índia védica); baodhas (no Zend-Avesta, dos persas); Kha ou Bai (entre os sacerdotes egípcios); rouach (na Cabala); kama-rupa (Budismo); eidolon, okhema, ferouer(entre os gregos); Khi (na tradição chinesa); corpo astral (entre os hermetistas, alquimistas, esoteristas, teosofistas);corpo sidéreo (Paracelso); aerossoma (neognósticos); corpo fluídico (Leibniz); somod (Baraduc); mediador plástico (Cudworth), metassoma (Bret), modelo organizador biológico - MOB (Hernani G. Andrade), etc.”

Modernamente, o períspirito tem atraído o interesse de renomados

Investigadores, que, inclusive, veem nele um dos mais importantes fatores do processo vital.

 

 

 

 

FONTE:

PERIPIRITO - Zilmmanno Zilmerman

Evolução em Dois Mundos -  Francisco Candido Xavier Waldo Vieira

O Porque da Vida -  Leon Denis

Depois da Morte – Leon Denis"

O Livro dos Espíritos e a Física Moderna.

" REFORMADOR,

 

 

 

 

 

Rio de

Janeiro: FEB, ag., 1999, pp. 20 a 23).

 

OS DOIS CRUCIFICADOS

 

OS DOIS CRUCIFICADOS

 

"Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram a ele, e também aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda." (Lucas, XIII, 33.)

"Um dos malfeitores suspensos à cruz o insultava dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós! Mas o outro, tomando a palavra o repreendia: Nem ao menos temes a Deus, estando debaixo da mesma condenação? Nem sequer temes a Deus estrando da mesma condenação? Quanto a nós é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres com teu reino. Ele respondeu: Em verdade eu te digo hoje estarás comigo no Paraíso." (Lucas, XXIII, 39-43.)

"Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à esquerda. Os transeuntes injuriavam-no meneando a cabeça e dizendo: ”Ah! Tu que destrói o templo e em três dias o reedifica, salva-te a ti mesmo descendo da cruz! Do mesmo modo também os chefes dos sacerdotes, caçoando dele entre si e com os escribas diziam: “a outros salvou, a si mesmo não pode salvar! ” O Messias o rei de Israel... que desça agora da cruz para que vejamos e creiamos e até os que haviam sido crucificados com ele o ultrajavam." (Marcos, XV, 27-32.)

" com ele foram crucificados dois ladrões, um à direita, outro à esquerda. Os transeuntes injuriavam-no meneando a cabeça e dizendo: tu que destrói o templo e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo; se és Filho de Deus e desce da cruz; do mesmo modo também os chefes dos sacerdotes juntamente com os escribas e anciãos, caçoavam dele: a outros salvou, a si mesmo não pode salvar; Rei de Israel que é que desça agora da cruz e creremos nele. Confiou em Deus? Pois que o livre agora, se é que se interessa por ele! Já que ele disse: eu Sou Filho de Deus; e até os ladrões que foram crucificados com ele, o insultavam (Mateus, XXVII, 38-44.)

"... onde o crucificaram e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio." (João, XIX, 18.)

"... como era a preparação, os judeus, para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado – porque esse sábado era grande dia pediram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas e fossem retirados pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e que fossem retirados.

Vieram então os soldados e quebraram as pernas ao primeiro e depois do outro que foram crucificados com ele; chegando, a jesus, e vendo-o já morto não lhe quebraram as pernas como o vissem morto; não lhe quebraram as pernas...". (João, XIX, 31-32.)

 

 

A crucificação é o mais antigo de todos os suplícios, inventado para dar a morte com dores atrozes e demorados sofrimentos. Essa tortura veio do Oriente.

O suplício da cruz não apareceu completo, como geralmente se julga, mas foi sendo aperfeiçoado aos poucos.

No princípio consistia num simples poste de madeira enterrado, no qual o condenado era preso com cravas e cordas. Às vezes o poste era substituído por qualquer arvore: o criminoso era ligado ao tronco com cravos, tendo os braços estendidos sobre os ramos. Mais tarde apareceu a cruz em forma de T, depois de X (Cruz de S. André), de Y, e, por fim, aquela que serviu para crucificar a Jesus, havendo outros tipos.

Os romanos puniam com o suplício da cruz os escravos, os ladrões, os assassinos. Os condenados eram primeiramente açoitados com correias e arrastados pelas ruas.

Este suplício bárbaro não tardou a ser imitado pelos judeus, sofrendo, entretanto, algumas modificações. Os romanos mantinham os corpos três dias na cruz, ao passo que os judeus crucificavam e de tal modo torturavam a vítima, que a morte não se fazia demorar. Tiravam-na depois da cruz, quebravam-lhe as pernas e a enterravam.

A transcrição dos trechos evangélicos dá bem uma ideia do suplício da crucificação.

Vê-se que os dois condenados que foram crucificados com Jesus tiveram as pernas quebradas; contudo, não aplicaram o mesmo processo a Jesus, por haverem constatado a sua morte, cumprindo-se a profecia: "Nenhum dos seus ossos será quebrado."

Quebrar as pernas era o método que impedia o crucificado de se apoiar onde os pés eram cravados e encher os pulmões demorando a morrer.

O mundo de então era uma barbaridade. Punia-se um crime com um crime maior; não se educava o delinquente, não o corrigiam, mas o condenavam. E a pena era: tortura, suplício, morte!

A ideia que os donos do poder faziam da morte, pela legislação antiga, era a extinção da alma ou a sua deportação para o Inferno.

A teoria da "vida única", tal como a concebiam os doutores da Lei, os governadores e os sacerdotes, não podia mesmo estabelecer diferença entre um assassino e um ladrão. Os que acreditavam na imortalidade tinham desse princípio uma noção muito vaga, aliando-a à ideia do juízo final e à da ressurreição da carne, tal como a concebem atualmente os católicos romanos e os protestantes.

Jesus veio destruir todos esses dogmas e crenças hereditárias, demonstrando o que é, verdadeiramente, a morte, erguendo sobre o princípio da imortalidade a Religião do Perdão e do Amor.

As passagens dos Evangelhos aqui referidas nos apresentam um quadro bem contristador: dois condenados, por terem praticado delitos não especificados, pendurados também no madeiro infamante ao lado do meigo Nazareno - um à direita, outro à esquerda. Diz Lucas que eram dois malfeitores; Marcos e Mateus dizem que eram dois salteadores; João limitou-se a dizer que eram dois indivíduos.

Os Evangelhos, mesmo os chamados Sinóticos, não estão de acordo quanto à narração que fazem dos dois crucificados e da sua atitude para com Jesus, Marcos e Mateus afirmam que eles zombavam e blasfemavam contra o Senhor; Lucas diz que só um deles dirigiu uma frase a Jesus: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também." João faz ligeira referência aos dois condenados, limitando-se a dizer que "onde crucificaram a Jesus, também crucificaram com ele outros dois".

Um trecho do capítulo de Lucas é muito aproveitado pelos pastores protestantes e padres romanos para fazerem prevalecer as suas doutrinas de conversão à hora da morte.

E a passagem chamada do bom ladrão, que dissera a Jesus: "lembra-te de mim quando entrares no teu reino" e obteve a resposta:

"Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso."

Esta promessa não significa mais que o conhecimento de situação que Jesus daria àquele infeliz, após a sua passagem para a outra vida.

O Paraíso não é num lugar determinado, numa estância escolhida, nem, tampouco, a sede da suprema bem-aventurança. O mundo espiritual é o Paraíso, e o espírito, para vê-lo tal como é, precisa ter conhecimento do seu Estado de desencarnação. Esse conhecimento, Jesus o prometeu ao "bom ladrão", respondendo à súplica que ele lhe fez.

E, pelos Evangelhos, vemos claramente que o próprio Jesus não foi para Paraíso algum.

Em seguida à sua morte Ele ressuscitou e ficou mesmo na Terra, por espaço de 40 dias, aparecendo a uns e outros, como dizem as Escrituras e como também o pregam o Catolicismo e o Protestantismo.

A expressão: "Hoje estarás comigo no Paraíso", não quer dizer outra coisa senão: hoje conhecerás a imortalidade, conhecerás a tua situação futura e verás o Mundo Espiritual, no qual te acharás.

Entretanto essa promessa não se estende à plenitude de felicidade que o "bom ladrão" iria fruir ao lado de Jesus. O conhecimento do estado e do meio em que nos achamos é muita coisa, mas não é felicidade completa, não é gozo. É uma condição preparatória para a obtenção da felicidade real, mas não é o alcance da mesma, que só se pode conquistar mediante a reparação das faltas e a aquisição de sabedoria e virtudes que testemunhem o nosso mérito.

Se o ingresso para o "Paraíso" se obtivesse com a conversão à hora da morte, após uma vida de desorientação e de desleixo em que só se realçam as paixões más, vamos concordar em que a virtude seria letra morta e a sabedoria não teria sanção nos conselhos eternos.

Não viemos a este mundo para pagar pecados de quem quer que seja, nem para arrepender-nos de coisa nenhuma, mas, sim, para progredir na prática do Bem e conquistar o Saber.

Os dois crucificados, tanto o "bom" como o "mau" ladrão, hão de chegar à perfeição por séries de virtudes, pelos esforços congregados em múltiplas existências, porque "ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo".

 

FONTE:

Carlos T. Pastorino

Bíblia de Jerusalém

 

 

 

 

 

A propósito da evolução do princípio inteligente

A propósito da evolução do princípio inteligente

 

Questão 607 -  Foi dito que a alma do homem, em sua origem, se assemelha ao estado de infância da vida corpórea, que a sua inteligência apenas desponta e que ela ensaia para a vida. (questão 190: - Qual é o estado da alma em sua primeira encarnação? “O mesmo da infância na vida corpórea. Sua inteligência apenas desabrocha: ela ensaia para a vida.” –

Onde o Espírito cumpre essa primeira fase? “Em uma série de existências que precedem o período a que chamam de Humanidade. ”)

·        Questão 607a. Desta forma, a alma parece ter sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação?

“Não dissemos que tudo se encadeia na Natureza e tende à unidade?

É nesses seres, que se está longe de conhecer plenamente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e ensaia para a vida.

De certa forma, é um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. É então que começa para ele o período de Humanidade e, com ele, a consciência de seu futuro, a distinção do bem e do mal e a responsabilidade por seus atos; como após o período da infância vêm o da adolescência, depois a juventude e, enfim, a idade adulta. Não há nada, nessa origem, que deva humilhar o homem. Os grandes gênios sentem-se humilhados por terem sido fetos disformes no ventre materno? Se algo deve humilhá-los, é a sua inferioridade diante de Deus e sua impotência para sondar a profundeza de seus desejos e a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo. Reconheçam a grandeza de Deus nessa admirável harmonia que forma a solidariedade em todas as coisas da Natureza. Acreditar que Deus teria podido fazer qualquer coisa sem objetivo e criar seres inteligentes sem futuro seria blasfemar contra Sua bondade que se estende sobre todas as Suas criaturas. ”

·        607b. Esse período da Humanidade começa sobre a nossa Terra?

“A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. Em geral, o período da Humanidade começa nos mundos ainda mais inferiores.

Essa, no entanto, não é uma regra absoluta e poderia acontecer que um Espírito, desde o seu início humano, esteja apto a viver na Terra. Esse caso não é frequente e seria antes uma exceção. ”

 

“[…] É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida. É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, pelo qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. […]”

Um dos pontos frequentes de dúvida no estudo do Espiritismo é, decerto, o processo evolutivo do princípio inteligente, ou espiritual, ao longo da série de existências que precedem o período da Humanidade.

É importante assinalar, contudo, que a questão do evolucionismo se insere no amplo contexto do princípio das coisas e, também, que todo conhecimento relacionado com as origens se afigura inacessível a Espíritos que nos sãos superiores, segundo eles mesmos afirmam. A partir dessa constatação, inevitável será admitir que o máximo a ser atingido em nossas especulações, nesse sentido, será formular hipóteses e construir teorias que nos ajudem a tranquilizar o raciocínio, sempre ávido por novos focos de entendimento.

Isto posto, vejamos o que dizem os Espíritos sobre a questão das origens.

Iniciemos com a resposta que as entidades instrutoras deram a Allan Kardec, quando este lhes pergunta se os Espíritos tiveram princípio, ou se, como Deus, sempre existiram:

“Se não tivessem princípio, seriam iguais a Deus, ao passo que são criação sua e se acham submetidos à sua vontade.

Deus existe de toda a eternidade, é incontestável; quanto, porém, ao modo como Ele nos criou, nada sabemos. […] Deus há de ter criado incessantemente. Mas quando e como Ele criou cada um de nós, eu te repito, ninguém o sabe: eis o mistério. ”

E o mistério permanece, como deflui das palavras do Espírito Emmanuel:

Contempla-se […], até hoje, a sombra dos princípios como noite insondável sobre abismos. Os desencarnados da minha esfera não se acham indenes, por enquanto, do socorro das hipóteses. A única certeza obtida é a da imortalidade da vida e, como não é possível observar a essência da sabedoria, sem iniciativas individuais e sem ardorosos trabalhos, discutimos e estudamos as nobres questões que, na Terra, preocupavam o nosso pensamento.

Um desses problemas, que mais assombram pela sua singular transcendência, é o das origens. […]

A respeito especificamente da evolução do princípio espiritual, acrescenta o citado autor:

Se bem haja no próprio círculo dos estudiosos dos espaços o grupo dos opositores das grandes ideias sobre o evolucionismo do princípio espiritual por meio das espécies, sou dos que a estudam, atenta e carinhosamente.

Eminentes naturalistas do mundo, como Charles Darwin, vislumbram grandiosas verdades, levando a efeito preciosos estudos […] e, dentro das minhas experiências, posso afirmar, sem laivos de dogmatismo, que, oriundos da flora microbiana, em séculos remotíssimos, não podemos precisar onde se encontra o acume (parte mais aguda ou penetrante de) das espécies ou da escala dos seres no pentagrama universal.

E, como o objetivo é o estudo dos animais, nossos irmãos inferiores, podemos ficar à vontade para afirmar que todos nós já nos debatemos no seu acanhado círculo evolutivo.

E como que arrematando: Da noite dos grandes princípios, ainda insondável para nós, emergimos para o concerto da vida. A origem constitui, para nosso relativo entendimento, um profundo mistério, cuja solução ainda não nos foi possível atingir, mas sabemos que todos os seres inferiores e superiores participam do patrimônio da luz universal.

Citemos Kardec:

O ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e que fazem parte dos segredos de Deus. Não é permitido ao homem conhecê-las de maneira absoluta, só lhe sendo possível fazer a tal respeito algumas suposições e construir sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões mais ou menos sensatas (preocupe-se em eliminar o egoísmo, o orgulho, a matéria e assumir o amor integral primeiro – grifo nosso).

É, assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação.

Segundo outros, o Espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. […]

Eis o resumo dos ensinamentos destes últimos, ainda nas palavras de Kardec:

As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente umas das outras pela via da progressão. Assim, o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe, do pássaro, do quadrúpede e do quadrúmano. Cada espécie constitui, física e moralmente, um tipo absoluto, haurindo cada indivíduo na fonte universal a quantidade de princípio inteligente que lhe seja necessária, de acordo com a perfeição de seus órgãos e com a obra que tenha de executar nos fenômenos da Natureza, quantidade que, por sua morte, é devolvida à massa. […]

Com o homem não sucede a mesma coisa. Do ponto de vista físico, ele forma, evidentemente, um elo da cadeia dos seres vivos; mas, do ponto de vista moral, há solução de continuidade entre o homem e o animal. […]

Como vemos, os Espíritos que não aderem ao evolucionismo fazem-no em relação ao princípio inteligente, admitindo-o, porém, no tocante aos seres vivos.

Na esteira desses apontamentos, abrindo uns parênteses no curso de nossa dissertação, não podemos deixar de perceber, ante a discrepância de opiniões entre Espíritos de elevado nível progressivo, um fato relevante: nem sempre as ideias discordantes entre os Espíritos se devem à falta de elevação de uns ou de outros; divergências podem surgir entre Espíritos possuidores de grandes conhecimentos, tal como se verifica, na Terra, entre homens de renomado saber.

Após essas considerações, cuidemos, com vistas a aprofundar nosso pensamento, de interessante peculiaridade relativa à introdução do evolucionismo na Codificação Espírita.

Comecemos dizendo que a teoria da evolução das espécies dos seres vivos, por meio de mutações lentas e progressivas, de autoria do naturalista britânico Charles Darwin, foi apresentada por este em seu livro A origem das espécies, vindo a lume em 1859, portanto, dois anos depois da primeira edição de O livro dos espíritos.

Em virtude de razões que desconhecemos, os Espíritos, ou o próprio Kardec, não quiseram adiantar o descortino espiritual desse assunto, na primeira edição da obra supracitada, deixando para apresentá-lo apenas na segunda edição definitiva, em 1860, após o surgimento do livro de Darwin.

Era como se aguardassem o momento certo para oferecer o contraponto do Espiritismo às ideias do grande naturalista, aprofundando-as.

Tudo deveria vir no tempo preciso é o que se pode depreender da ocorrência.

Sabemos que o método usado pelo Codificador, na investigação do fenômeno mediúnico, foi o experimental, aplicado às ciências positivas. Guiando-se, ainda, pela metodologia científica, passou ele a adotar, na elaboração da Doutrina Espírita, dois importantes critérios, com suporte na razão e no bom senso: a generalidade (ou universalidade) e a concordância dos ensinos dos Espíritos:

Generalidade e concordância no ensino [declara Kardec], esse o caráter essencial da doutrina, a condição mesma da sua existência, donde resulta que todo princípio que não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina, mas simples opinião isolada, cuja responsabilidade o Espiritismo não pode assumir.

Em caso de ausência da unanimidade, seria preciso buscar o parecer da maioria e segui-lo, sempre de acordo com o critério da razão e do bom senso.

Foi assim, com certeza, que, apoiado no “Controle universal do ensino dos Espíritos”, inseriu Kardec, no conteúdo da Codificação Espírita, o princípio inteligente e seu processo evolutivo, retratado este na citação em epígrafe.

Considere-se, no entanto, que o Codificador, no uso do bom senso que lhe é característico, sabendo das discordâncias entre os Espíritos que com ele partilhavam suas reflexões, deixa de incluir a evolução do princípio inteligente entre os pontos mais importantes (que, de hábito, denominamos básicos) da doutrina por eles transmitida, conforme se lê no item VI da Introdução de O livro dos espíritos, abrindo espaço, a nosso ver, para futuras elucidações sobre esse intrincado problema.

Tudo isso visto, é de perceber que o evolucionismo do princípio inteligente, fazendo parte da questão das origens, assume o grau de respeitável teoria, apoiada por Espíritos eméritos, aguardando o caminhar progressivo do conhecimento para que possa ser mais bem compreendida.

Com esse foco de raciocínio, voltemo-nos para o principal tópico de dúvida sobre a evolução do princípio inteligente, conforme temos observado nos labores de nossos estudos doutrinários.

O princípio inteligente seria algo definido e permanente, desde a origem? Poderia ser ele, enfim, considerado um indivíduo? Pergunta-se.

Com efeito, o termo indivíduo significa, etimologicamente, indivisível, uno: “qualquer ser concreto, conhecido por meio da experiência, que possui uma unidade de caracteres e forma um todo reconhecível”.

Dentro dessa acepção, será possível conceber o princípio inteligente como um indivíduo, de natureza única e singular, definido e reconhecível. Pensaríamos em sua individuação no instante em que se retira do elemento inteligente universal para cumprir a destinação que lhe é dada pela Lei Divina.

Tal concepção do princípio inteligente parece mesmo defluir, em especial, dos esclarecimentos dados pelo Espírito André Luiz, na obra Evolução em dois mundos. Ao fazer breve descrição do evolucionismo, o autor apresenta o princípio espiritual sempre ativo, construindo as próprias faculdades.

Para isso, utiliza-se de brilhante comparação com o que sucede na sociedade humana.  E será útil transcrever:

“Assim como na coletividade humana o indivíduo trabalha para a comunidade a que pertence, entregando-lhe o produto das próprias aquisições, e a sociedade opera em favor do indivíduo que a compõe, protegendo-lhe a existência, no impositivo do aperfeiçoamento constante, nos reinos menores o ser inferior serve à espécie a que se ajusta, confiando-lhe, maquinalmente, o fruto das próprias conquistas, e a espécie labora em benefício dele, amparando-o com todos os valores por ela assimilados, a fim de que a ascensão da vida não sofra qualquer solução de continuidade.

Se, no círculo humano, a inteligência é seguida pela razão e a razão pela responsabilidade, nas linhas da civilização, sob os signos da cultura, observamos que, na retaguarda do transformismo, o reflexo precede o instinto, tanto quanto o instinto precede a atividade refletida, que é a base da inteligência nos depósitos do conhecimento adquirido por recapitulação e transmissão incessantes, nos milhares de milênios em que o princípio espiritual atravessa lentamente os círculos elementares da Natureza, qual vaso vivo, de forma em forma, até configurar-se no indivíduo humano, em trânsito para a maturação sublimada no campo angélico.

Desse modo […], não podemos esquecer a função preponderante do automatismo e da herança na formação da individualidade responsável […], porquanto ao longo da atração no mineral, da sensação no vegetal e do instinto no animal, vemos a crisálida da consciência [princípio inteligente] construindo as suas faculdades de organização, sensibilidade e inteligência, transformando, gradativamente, toda a atividade nervosa em vida psíquica. “ (Grifo nosso).

É sempre oportuno salientar, dentro desse quadro, a ação desenvolvida pelo princípio espiritual nas células constitutivas dos animais superiores e dos seres humanos, sob o comando das inteligências mais avançadas que neles atuam. Mesmo aí, nessa fase rudimentar, evidencia-se seu caráter singular e único.

De acordo com André Luiz, tais células, como:

Animálculos infinitesimais, que se revelam domesticados e ordeiros na colmeia orgânica, assumem formas diferentes, segundo a posição dos indivíduos e a natureza dos tecidos em que se agrupam, obedecendo ao pensamento simples ou complexo que lhes comanda a existência. ¹⁵

Assim, daríamos às indagações acima colocadas a seguinte resposta:

“O princípio inteligente é, de fato, um indivíduo, com suas características de unidade e indivisibilidade, desde a origem, isto é, desde o momento que emana do elemento inteligente universal. A partir daí, sempre atuante, seja qual for a fase de seu adiantamento, experimenta, na qualidade da alma dos seres da Criação que ainda não atingiram a Humanidade, o esforço de elaboração e individualização paulatina, com o que se ensaia para a vida”.

Essa resposta leva, inevitavelmente, a outro questionamento:

Se é assim, qual a diferença entre um indivíduo e um ser individualizado?

Segundo o léxico, consiste a individualização no processo mediante o qual um indivíduo se diferencia de todos os outros. Dessa forma, diremos que o princípio inteligente, quando começa a individualizar-se, passa a adquirir atributos específicos, que o destacam dos demais. Continua um indivíduo, mas com características que não mais se igualam às dos outros princípios inteligentes.

Quanto à eventual cogitação de que, emergindo de todo esse processo evolutivo, possa o Espírito lembrar-se das etapas anteriormente percorridas, adiantando dizer que escapa inteiramente de nossa capacidade de percepção qualquer vislumbre a tal propósito, ainda mais considerando que os próprios Espíritos dizem que mal se lembram de suas primeiras existências humanas.

Nada obstante, parece fácil reconhecer que, depois de adquirir a “[…]consciência do seu futuro, capacidade de distinguir entre o bem e o mal e a responsabilidade dos seus atos […]”, pouco importará ao Espírito identificar-se em seus estágios precedentes. Será ele – se nos fosse dado fazer uma comparação a esse respeito – qual o fruto, que venceu a semente, ou a criança, que superou o embrião.

FONTES: 

O livro dos espíritos. (Sobre os animais, os animais – nossos parentes próximos.)

A gênese.

O evangelho segundo o espiritismo.

Dicionário Houaiss da língua portuguesa.

Evolução em dois mundos Pelo Espírito André Luiz

O livro dos espíritos – (Automatismo e corpo espiritual).