O DISCÍPULO ANÔNIMO
Poderiam ter notado, por exemplo, pelas montanhas, pelas ruas, e até
sentado à soleira da casa de Pedro, em Cafarnaum, e no pátio florido da granja
de Lázaro, em Betânia, mas, absorvido no anonimato da multidão um jovem Moreno,
de olhos cinzentos e sonhadores, cabelos negros e abundantes que iam até à
altura do pescoço, barba pequena, negra como a cabeleira, sempre tratada e
limpa, vestia uma túnica de algodão azul escuro, alpercatas gregas e um manto
marrom.
A tiracolo trazia, de um lado, um saco de couro de carneiro onde
guardava, envoltos em retalhos de linho muito alvo, dois roletes de madeira,
espécie de carretéis, um deles sempre suprido com papiros, utilizados para a
escrita pelos intelectuais da época, conforme o uso grego, estiletes, sais
coloridos e uma espécie de flauta, um pífano. Do outro lado, em outro saco
trazia um alaúde.
Ele era visto sempre sozinho. Jamais falava e difícil seria dizer de sua
nacionalidade. Poderia ser egípcio, não fosse a cor dos olhos. Talvez fosse
mesmo grego, dadas as particularidades dos apetrechos para a escrita.
Seguindo Jesus, o moço do manto marrom procurava se sentar, no chão, ou
em um banco improvisado com uma pedra, ou na soleira de uma porta e punha-se a
escrever o que ouvia.
À noite, na pensão modesta a que se recolhesse ou no celeiro de alguma
casa particular, ele desenrolava os papiros e, à luz de uma candeia de azeite,
tudo relia. Estudava mesmo, até alta madrugada, fazendo anotações, comentários
em outros retalhos de papiros ou peles de ovelhas, colecionando tudo
caprichosamente. É como se, em sua mente, já se estivesse delineando algo que
surgiria bem mais tarde, o livro.
Muito erudito, escrevia em grego, ou aramaico ou latim e por
vezes, compunha versos, acerca do que ouvira e vira, pois mais de uma vez
presenciou as extraordinárias curas realizadas pelo Meigo Rabi.
Ele estava presente, quando o chefe da sinagoga de Cafarnaum procurou
Jesus, suplicando-lhe ir à sua casa, pois sua filha, menina de 12 anos, estava
presa de febre violenta. Assistiu, assim, à cura da mulher portadora de
terríveis hemorragias.
Jesus, então empurrado daqui e dali, aproximou-se tanto do jovem, nessa
oportunidade, que o Seu manto lhe roçou o rosto. Emocionado, o moço tomou da
ponta do manto e ali depositou um ósculo de veneração.
O Nazareno voltou-se, fitou-o em silêncio e pousou por um único
instante, sua mão sobre a cabeça do moço, abençoando-o. Os dois olhares se
cruzaram. Nenhuma palavra foi pronunciada.
Logo mais, o alarido festivo anunciava que a filha de Jairo estava
curada. Ali mesmo, o jovem retirou o tubo de estiletes, os carretéis com os
papiros, os sais coloridos e escreveu sobre o que presenciara.
Alguns dias depois, estando em uma praça aguardando a vinda de Jesus, o
moço começou a observar a quase multidão que também ali esperava. Por onde
andariam Jesus e os apóstolos?
Possivelmente em outra localidade, esparzindo bênçãos. Mas ali, os
doentes começaram a ficar impacientes. Havia gemidos de um lado, queixas de
outro.
Finalmente, em torno do meio-dia, tomado de profunda compaixão, o moço
se levantou da sombra da videira, onde estava assentado, desde o alvorecer,
aproximou-se de um daqueles endemoninhados em convulsão. Colocou sua mão sobre
a cabeça do pobre homem e exclamou:
"Em nome de Jesus Nazareno, o Filho de Deus vivo, retira-te deste
homem e vai em paz!"
O doente ainda se rolou pelo chão, gritou roucamente. Finalmente,
surpreso, parecendo acordar de um pesadelo, se ergueu, um tanto envergonhado,
limpou a poeira da túnica e se foi. Estava curado.
O restante daquele dia foi dedicado todo a curas de obsedados. Parecia
ser a especialidade daquele moço. Nos dias seguintes, ele continuou. Foi então
que João, em presenciando a sua tarefa, lhe proíbe de continuar, visto não
pertencer ao grupo de Jesus, não ser um dos apóstolos.
Alguns dias depois, estando em uma praça aguardando a vinda de Jesus, o
moço começou a observar a quase multidão que também ali esperava. Por onde
andariam Jesus e os apóstolos?
Possivelmente em outra localidade, esparzindo bênçãos. Mas ali, os
doentes começaram a ficar impacientes. Havia gemidos de um lado, queixas de
outro.
Finalmente, em torno do meio-dia, tomado de profunda compaixão, o moço
se levantou da sombra da videira, onde estava assentado, desde o alvorecer,
aproximou-se de um daqueles endemoninhados em convulsão. Colocou sua mão sobre
a cabeça do pobre homem e exclamou:
"Em nome de Jesus Nazareno, o Filho de Deus vivo, retira-te
deste homem e vai em paz!"
O doente ainda se rolou pelo chão, gritou roucamente. Finalmente,
surpreso, parecendo acordar de um pesadelo, se ergueu, um tanto envergonhado,
limpou a poeira da túnica e se foi. Estava curado.
O restante daquele dia foi dedicado todo a curas de obsedados. Parecia
ser a especialidade daquele moço. Nos dias seguintes, ele continuou. Foi então
que João, em presenciando a sua tarefa, lhe proíbe de continuar, visto não
pertencer ao grupo de Jesus, não ser um dos apóstolos.”.
Vieram depois os dias tristes da prisão e morte do Divino Amigo. Sete
dias se tinham passado. O jovem acabara de escrever sobre as notícias da
ressurreição tão falada. Cansado de escrever, de ler e de chorar, adormeceu e
sonhou.
Sonhou que Jesus o visitava em seu pobre albergue, radioso, e lhe
pedia que tratasse de curar também as almas, não somente os corpos, eis que
essas são eternas.
Assim, o moço do manto marrom passou a atrair crianças e jovens
para perto de si, através da música. Tocava melodias doces em sua flauta e,
quando se via rodeado, dizia que se sentassem, porque ele tinha histórias muito
lindas para contar. Histórias de um Príncipe que descera dos Céus.
E ele narrava o que vira, e ouvira. Depois declamava ou cantava
seus versos que falavam das verdades eternas, revelando-se emérito professor e
educador.
Durante o dia trabalhava remendando mantos e túnicas, carregando
água, levando camelos e cavalos de estrangeiros a beberem e a serem lavados,
carregando cestos de compras. Pela manhã e ao cair do crepúsculo, dava suas
aulas.
Aos discípulos interessados presenteava uma cópia das suas
anotações sobre o Nazareno e sua Boa Nova.
Quando reconhecia que seus ouvintes haviam assimilado as lições, partia
para outras terras. Na sua velhice, foi visto na cidade dos Césares, ainda de
olhos sonhadores, tocando velhas melodias em seu pífano, ou recitando e
cantando lindos poemas ao som de seu alaúde. Poemas que falavam de um Príncipe
que abandonara temporariamente as estrelas para ensinar aos homens a Lei de
Amor.
Nunca ninguém lhe registrou o nome. Na juventude, chamavam-no
"Moço". Na velhice, "avozinho".
Narra João, o quarto cronista da Boa Nova, no capítulo 21, versículo 25
do seu Evangelho que: "Muitas outras coisas, porém, há ainda que fez
Jesus; as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo
poderiam caber os livros que delas se houvessem de escrever."
Marcos escreve em seu capítulo 9:37 a 39, a respeito da atitude de João
ordenando a um homem que parasse de curar obsedados, em nome de Jesus, porque
não pertencia ao círculo do Nazareno.
Mesmo muito jovem, aquele personagem era visto a seguir Jesus, onde quer
que Ele se encontrasse.
A partir desse dia, curava endemoninhados sem
cessar, pois, ao que parecia, era a sua especialidade… (Lucas 9:49) porque
João, que, por acaso, presenciara as primeiras curas e lho proibira continuar,
visto que ele não era filiado ao grupo homogêneo, voltara a ele, humildemente,
desculpando-se e participando-lhe que continuasse, porque o Mestre o autorizava
a exercer o ministério, mesmo não gozando ele da intimidade dos verdadeiros
discípulos, pois reconhecia nele um amigo digno de confiança…
Disse João: Mestre, vimos alguém expulsar
demônios em teu nome e nós o impedimos, porque ele não te segue conosco. E
Jesus disse a João: Não o impeçais, pois quem não é contra vós está a seu
favor”.
e Marcos 9: 38 Disse-lhe João: “Mestre vimos
alguém que não nos segue expulsando demônios em teu nome, e o impedimos porque
não nos seguia”. Jesus, porém, disse: “Não o impeçais, pois não há ninguém que
faça milagre em meu nome e logo depois possa falar mal de mim. Porque quem não
é contra nós é por nós”.
FONTE:
Ressurreição
e Vida – Yvonne do Amaral Peixoto
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