sexta-feira, 11 de junho de 2021

O JOIO NO MEIO DO TRIGO

 

O JOIO NO MEIO DO TRIGO

(Mt 13, 24-30)

Parábola do joio. Propôs-lhes ainda outra parábola: “O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Mas, quando a gente dormia, veio seu inimigo e semeou joio no meio do trigo, e foi-se embora.

Quando, pois, acresceu o trigo e começou a espigar, apareceu também o joio.

Chegaram-se então os servos ao dono da casa e lhe perguntaram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde lhe vem, pois, o joio?

Foi o inimigo que fez isto – respondeu-lhes ele.

Perguntaram-lhe os servos: Queres que vamos e o colhamos?

Não – replicou ele –, para que, colhendo o joio, não arranqueis com ele também o trigo. Deixai crescer um e outro até à colheita; e no tempo da colheita direi aos ceifadores: Colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro”.

Todo homem tem o direito a realizar-se até o fim do seu ciclo evolutivo

Como outras parábolas, é também está flagrantemente paradoxal, se

Focalizarmos apenas o seu símbolo material. Imagine-se um fazendeiro que semeasse trigo, ou outra semente qualquer, em seu campo, e proibisse os trabalhadores de arrancarem o “mato”, as ervas daninhas que aparecessem nomeio da plantação!

Mas, como o principal de uma parábola não é o símbolo material, e sim o simbolizado espiritual, a proibição de arrancar o joio do meio do trigo contém uma filosofia cósmica de grande profundeza e sublimidade.

O campo é o mundo da humanidade.

O trigo são os bons.

O joio são os maus.

Tanto estes como aqueles são o que são graças ao uso ou abuso do seu livre-arbítrio. Deus não fez nenhum homem moralmente bom nem mau; Deus dá a cada um a possibilidade de se fazer bom ou mau. Todo homem pode fazer-se melhor ou pior do que Deus o fez. O homem sai das mãos de Deus em estado neutro, apenas potencialmente bom e potencialmente mau. Um ser dotado de livre-arbítrio não pode ser creado atualmente bom nem atualmente mau, o que seria a negação do livre-arbítrio.

Esta neutralidade contém em si a semente, ou potencialidade, para umacreatividade boa ou má; a brotação, ou atualização, dessa dupla potencialidade corre por conta do homem. Onde há livre-arbítrio não há auto-inatismo (afirma o caráter inato das ideias no homem, sustentando que independem daquilo que ele experimentou e percebeu após o seu nascimento) compulsório.

No mundo infra-hominal não existe essa bipolaridade potencial; o mundo mineral, vegetal, animal, acha-se num permanente e imutável automatismo: nenhum ser infra-hominal pode tornar-se moralmente bom nem moralmente mau. O livre-arbítrio põe o homem numa bifurcação positiva-negativa; o livre-arbítrio é o maior privilégio do homem – e também o seu maior perigo. O livre-arbítrio entrega ao homem as chaves do céu e do inferno, da luz e das trevas, do ser-bom e do ser-mau.

Deus respeita incondicionalmente o livre-arbítrio do homem, tanto para o bem como para o mal. Deus não obriga ninguém a ser bom, e não impede ninguém de ser mau. Jesus não impossibilitou a Judas Iscariotes ser traidor e suicida –nem forçou Madalena a se converter.

Pelo livre-arbítrio possui o homem uma creatividade, positiva ou negativa. E é vontade de Deus que o homem desenvolva até o fim este seu poder creador; que tenha plena e permanente liberdade de evolução rumo às alturas, ou então rumo ao abismo.

Ora, se o próprio Deus não impede o homem em sua evolução positiva ou negativa nem extermina nenhum mal por ser mau, como poderia o homem fazer o que Deus não faz? Verdade é que o próprio homem livremente mau pode auto exterminar-se, se não se tornar bom antes do termo final do seu ciclo evolutivo; mas esse extermínio não deve vir de fora dele.

Tamanha é a insipiência de certos homens que tentam arrancar o joio do meio do trigo para que morram todos os maus e sobrevivam tão-somente os bons –os bons matadores! Segundo essa filosofia, devia a terra ser habitáculo exclusivo dos bons matadores, livre e limpo dos maus matados.

Se é grande a boa vontade desses “bons”, nula é a sua sabedoria.

O Evangelho do Cristo, porém, é a apoteose da suprema sabedoria cósmica;

quer um ser-bom por espontânea liberdade, e não um ser-bom por compulsória necessidade. O homem deve ser intrinsecamente bom em virtude de um querer próprio, e não apenas extrinsecamente bom por um querer alheio. O seu ser-bom deve ser o fruto de um voluntário querer, e não de um compulsório dever.

O homem deve ter todas as possibilidades para ser mau – e, apesar disto, ser bom, livre, liberrimamente bom.

Mas, dirá alguém, neste caso o mau tem os mesmos direitos que o bom, e se há igualdade de direitos de parte a parte, que vantagem há em ser bom? Não equivale isto a matar todo estímulo para ser bom? Não é isto a morte de toda pedagogia e educação espiritual?

Esta falsa filosofia, através de séculos e milênios, tem tentado exterminar os maus e fazer sobreviver somente os bons; Cruzadas e Inquisições, guerras de religião, ódios sectários, violências de toda a espécie margeiam o caminho do nosso cristianismo de quase 2000 anos, isento da verdadeira sabedoria do Cristo.

Não é verdade que o destino dos bons e dos maus seja o mesmo, embora todos tenham os mesmos direitos de realizar livremente o seu destino.

O destino de uns e outros é diametralmente oposto: vida eterna – ou morte

eterna; integração – ou desintegração; realização – ou desrealização. Os bons se auto realizam – os maus se auto-desrealizam. Ninguém tem o direito de impedir que alguém se realize pelo bem – ou se desrealize pelo mal.

Mas, perguntará alguém, para que serve então a nossa pedagogia? Se eu não posso fazer o bem a ninguém, para que esse desperdício de esforços educativos e moralizadores?

Verdade é que ninguém pode obrigar alguém a ser bom – mas o educador pode facilitar a seu educando tornar-se bom. O educador não pode causar o ser-bom para seu educando – mas pode condicioná-lo a ser bom, pode mostrar-lhe o caminho, pode remover obstáculos que atravancam o caminho e assim facilitara passagem a seu educando.

Mas nunca, em hipótese alguma, pode o educador, por melhor que seja, ter a certeza de que os seus esforços convertem o educando. Perante o livre-arbítrio alheio, nada é previsível; pode o melhor dos educadores ter zero resultado como seu educando – assim como Jesus teve zero resultado com Judas.

Em face do livre-arbítrio alheio, tudo é possível, nada é impossível, nada é

previsível. O livre-arbítrio não é uma cadeia de elos onde o elo precedente

obrigue o elo subsequente a mover-se; o livre-arbítrio é um elo isolado e

autônomo, independente de qualquer causador externo; não é alo-causado – é auto causante. A única coisa certa que o educador pode e deve fazer é auto educar a sua própria substância a tal ponto que nenhuma circunstância alheia o tome vaidoso quando o resultado for positivo, nem o torne frustrado quando o resultado for negativo.

Se um educador, auto educado, atingir essa libertação total de si mesmo, esse total desescravização de toda e qualquer vaidade complacente em face de sucessos externos, e essa total serenidade em face de insucessos externos –então é ele um poderoso fator para crear auras propícias que facilitem outros homens a serem bons. Um homem assim pleni liberto de qualquer tirania do ego, não derrotado pela vaidade do sucesso nem pela tristeza do insucesso – esse homem é um gigantesco acumulador de energia espiritual, quer o saiba quer não o saiba. E, como nenhuma energia se perde, e todas as energias se transformam, essas energias espirituais por ele acumuladas irradiam beneficamente e podem ser captadas por outros seres livres, conhecidos ou desconhecidos, próximos ou distantes, presentes ou futuros, no planeta terra ou em alguma longínqua galáxia cósmica – e então esse homem é um grande benfeitor da humanidade telúrica ou de outras humanidades. Esse homem atua por indução, como diríamos em física, atua por transferência de energias invisíveis.

Neste sentido dizia Mahatma Gandhi: “Quando um único homem atinge a

plenitude do amor, neutraliza o ódio de muitos milhões”.

“O único modo de fazer bem aos outros é ser bom” (Ramana Maharishi).

A parábola não diz que Deus extermina o joio, os maus, mas estes se exterminam a si mesmos pela não integração na lei cósmica. Onde impera a onipotência do livre-arbítrio é possível tanto a integração do indivíduo no

Universal como também a sua desintegração, que no Evangelho se chama

“morte eterna”. É um dos mais funestos erros tradicionais da nossa teologia

afirmar que a alma humana é imortal, quando ela é apenas imortalizável.

Nenhuma creatura é imortal; imortal é somente o Creador; às creaturas ou são mortais ou imortalizáveis.

Os que ainda pensam em termos de um Deus pessoal, individual, não se

Conformarão com esta verdade. Mas o Evangelho do Cristo, como também as grandes filosofias da humanidade, sabem que Deus não é uma entidade

Individual; Deus é a lei cósmica universal. Os que voluntariamente se integram nessa lei se imortalizam – os que voluntariamente não se integram nela se desintegram, ou se auto exterminam.

FONTE:

Huberto Rodhen

Bíblia de Jerusalém

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