sábado, 4 de setembro de 2021

A rede e seu conteúdo

 

A rede e seu conteúdo

(Mt 13,47-52)

A rede. “O reino dos céus é ainda semelhante a rede de pescar, lançada ao mar que apanhou tudo. Quando está cheia, puxam-na à praia e, sentados, juntam o que é bom em vasilhas, mas o que não presta deitam fora.

Assim será no fim do mundo; vir~]o os anjos e separarão os maus dos justos, e os lançarão na fornalha ardente. Ali haverá choro e ranger de dentes.

Entendestes todas essas coisas? ”

Responderam-lhe: sim! Então lhes disse: “Pelo que todo o mestre instruído na doutrina do reino dos céus se parece com um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas”.

 

O destino final de cada homem é o resultado do seu livre-arbítrio isso todo escriba que se tornou discípulo do Reino dos Céus, é semelhante ao proprietário que do seu tesouro tira coisas novas e velhas.

“O Reino dos Céus é semelhante a uma rede, que foi lançada ao mar e apanhou coisas de todo gênero. Quando cheia, os homens puxaram-na à praia e, sentando-se, recolheram as coisas mais belas em vasos e deitaram fora as feias.

Assim acontecerá também na consumação dos tempos: sairão os mensageiros e separarão os maus do meio dos justos, lançando-os à fornalha de fogo; aí haverá choro e ranger de dentes. ”

O texto grego do primeiro século não fala em peixes, mas refere-se a “coisas

belas” (kalá) e “coisas feias” (saprá); mas a Vulgata Latina diz “peixes” e os

qualifica como “bons e maus”.

À luz da sabedoria da parábola, haverá uma separação final entre os maus e os justos. É o que se depreende desta parábola, bem como daquela do joio no meio do trigo e de outros textos do Evangelho. Durante todo o período evolutivo aqui na Terra, e provavelmente alhures, há uma inextrincável promiscuidade entre bons e maus.

Mas, afinal de contas, quem é bom e quem é mau?

Se não houvesse uma diferença radical entre bons e maus, não poderia haver vida eterna para uns e morte eterna para outros, como o Evangelho afirma repetidas vezes.

Aqui na Terra, certos grupos espiritualistas declaram bons os que observam

determinados cânones estabelecidos por esses grupos, e consideram maus os que não obedecem a essas regras. Esse critério, porém, é muito relativo e mutável, e não pode afetar o destino definitivo do ser humano.

Outros consideram bons os que fazem bem a seus semelhantes, e maus os

outros. Nem este critério atinge o íntimo quê do ser humano. Podemos fazer bem aos outros sem sermos bons nós mesmos. Podemos até fazer bem por vaidade, ostentação, egoísmo e outros motivos alheios ao verdadeiro ser-bom.

Muitos são beneficentes, não pelos motivos negativos acima indicados, mas por motivos positivos; e identificam o fazer bem com ser bom.

Entretanto, por mais estranho que pareça, simples atos ou fatos externos não representam necessariamente valores internos; são coisas em si neutras; nenhum ato ou fato é intrinsecamente bom ou mau. O que lhes dá valor ou desvalor é uma atitude interna creada pelo livre-arbítrio do homem. É unicamente realidade do Ser que determina o caráter do Agir. É esta atitude interna do Ser que pode ser boa ou má. O Agir é um transbordamento do Ser.

O Ser é do Eu central, o Agir é do ego periférico.

O Ser é a Essência ou Fonte, o Agir é Existência ou Canal.

Neste sentido dizia Jesus: “A árvore boa produz frutos bons, árvore má produz frutos maus; é pelos frutos que se conhece a árvore”.

Da interna atitude do ser-bom brotam os atos externos do fazer bem, atos que, neste caso, são eticamente bons, e não apenas moralmente louváveis. Embora a linguagem comum identifique a ética com a moral, em terminologia de precisão filosófica distinguimos esta daquela.

Atos são eticamente bons quando são o transbordamento espontâneo de uma atitude realmente boa – e essa atitude consiste numa harmonia da consciência individual com a Consciência Universal, que se pode chamar Deus ou Divindade.

Por outro lado, mau é um ato que nasce de uma atitude má, isto é, da desarmonia da consciência individual com a Consciência Universal.

Atos externamente benéficos são compatíveis com uma atitude internamente má, ou então neutra. Esses atos benéficos não provam necessariamente o ser-bom do seu autor. Nem todos os atos externamente morais são internamente éticos. A atitude determina os atos – mas os atos não determinam a atitude.

Neste sentido diz Einstein: “Do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho ao mundo dos valores, porque estes vêm de outra região”.

Fato é ato, valor é atitude. Valor ou atitude é creação do livre-arbítrio. Onde não há livre-arbítrio não há valor nem atitude.

Atos externos, benéficos, sem atitude interna, boa, podem ser morais, mas não são éticos. A ética, como dissemos, é um transbordamento da mística, e a mística consiste numa harmonia da consciência humana com a consciência divina. Um homem internamente mau, desarmonizado com Deus, pode ser externamente beneficente, benfeitor da humanidade. Simples moralidade não prova a mística, mas toda mística se revela em ética. A moral é um arranjo artificial de ego para ego, mas a ética é um transbordamento natural e irresistível da mística, é o extravasamento espontâneo de uma plenitude interior, assim como o fruto é a manifestação da exuberante vitalidade da árvore. Uma laranja que não nasceu da laranjeira é uma laranja artificial, fictícia, uma pseudo laranja (moralidade); somente uma laranja nascida da laranjeira é uma laranja verdadeira (ética). Nenhum homem, com toda a sua ciência e técnica, pode fazer uma laranja verdadeira; só a laranjeira (mística) pode produzir de dentro de sua própria alma, da Vida, e a Vida é Deus.

A mística é o ser-bom.

A ética é o fazer bem-nascido do ser bom.

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FONTE:

Carlos T. Pastorino

Bíblia de Jerusalém

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