A rede e seu conteúdo
(Mt 13,47-52)
A rede. “O reino
dos céus é ainda semelhante a rede de pescar, lançada ao mar que apanhou tudo.
Quando está cheia, puxam-na à praia e, sentados, juntam o que é bom em vasilhas,
mas o que não presta deitam fora.
Assim será no fim
do mundo; vir~]o os anjos e separarão os maus dos justos, e os lançarão na
fornalha ardente. Ali haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes todas
essas coisas? ”
Responderam-lhe:
sim! Então lhes disse: “Pelo que todo o mestre instruído na doutrina do reino dos
céus se parece com um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e
coisas velhas”.
O destino final
de cada homem é o resultado do seu livre-arbítrio isso todo escriba que se
tornou discípulo do Reino dos Céus, é semelhante ao proprietário que do seu
tesouro tira coisas novas e velhas.
“O Reino dos Céus
é semelhante a uma rede, que foi lançada ao mar e apanhou coisas de todo
gênero. Quando cheia, os homens puxaram-na à praia e, sentando-se, recolheram
as coisas mais belas em vasos e deitaram fora as feias.
Assim acontecerá
também na consumação dos tempos: sairão os mensageiros e separarão os maus do
meio dos justos, lançando-os à fornalha de fogo; aí haverá choro e ranger de dentes.
”
O texto grego do
primeiro século não fala em peixes, mas refere-se a “coisas
belas” (kalá) e
“coisas feias” (saprá); mas a Vulgata Latina diz “peixes” e os
qualifica como
“bons e maus”.
À luz da
sabedoria da parábola, haverá uma separação final entre os maus e os justos. É
o que se depreende desta parábola, bem como daquela do joio no meio do trigo e
de outros textos do Evangelho. Durante todo o período evolutivo aqui na Terra,
e provavelmente alhures, há uma inextrincável promiscuidade entre bons e maus.
Mas, afinal de
contas, quem é bom e quem é mau?
Se não houvesse
uma diferença radical entre bons e maus, não poderia haver vida eterna para uns
e morte eterna para outros, como o Evangelho afirma repetidas vezes.
Aqui na Terra,
certos grupos espiritualistas declaram bons os que observam
determinados
cânones estabelecidos por esses grupos, e consideram maus os que não obedecem a
essas regras. Esse critério, porém, é muito relativo e mutável, e não pode
afetar o destino definitivo do ser humano.
Outros consideram
bons os que fazem bem a seus semelhantes, e maus os
outros. Nem este
critério atinge o íntimo quê do ser humano. Podemos fazer bem aos outros sem
sermos bons nós mesmos. Podemos até fazer bem por vaidade, ostentação, egoísmo
e outros motivos alheios ao verdadeiro ser-bom.
Muitos são
beneficentes, não pelos motivos negativos acima indicados, mas por motivos
positivos; e identificam o fazer bem com ser bom.
Entretanto, por
mais estranho que pareça, simples atos ou fatos externos não representam
necessariamente valores internos; são coisas em si neutras; nenhum ato ou fato
é intrinsecamente bom ou mau. O que lhes dá valor ou desvalor é uma atitude
interna creada pelo livre-arbítrio do homem. É unicamente realidade do Ser que
determina o caráter do Agir. É esta atitude interna do Ser que pode ser boa ou
má. O Agir é um transbordamento do Ser.
O Ser é do Eu
central, o Agir é do ego periférico.
O Ser é a
Essência ou Fonte, o Agir é Existência ou Canal.
Neste sentido
dizia Jesus: “A árvore boa produz frutos bons, árvore má produz frutos maus; é
pelos frutos que se conhece a árvore”.
Da interna
atitude do ser-bom brotam os atos externos do fazer bem, atos que, neste caso,
são eticamente bons, e não apenas moralmente louváveis. Embora a linguagem
comum identifique a ética com a moral, em terminologia de precisão filosófica
distinguimos esta daquela.
Atos são
eticamente bons quando são o transbordamento espontâneo de uma atitude
realmente boa – e essa atitude consiste numa harmonia da consciência individual
com a Consciência Universal, que se pode chamar Deus ou Divindade.
Por outro lado,
mau é um ato que nasce de uma atitude má, isto é, da desarmonia da consciência
individual com a Consciência Universal.
Atos externamente
benéficos são compatíveis com uma atitude internamente má, ou então neutra.
Esses atos benéficos não provam necessariamente o ser-bom do seu autor. Nem
todos os atos externamente morais são internamente éticos. A atitude determina
os atos – mas os atos não determinam a atitude.
Neste sentido diz
Einstein: “Do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho ao mundo dos valores,
porque estes vêm de outra região”.
Fato é ato, valor
é atitude. Valor ou atitude é creação do livre-arbítrio. Onde não há
livre-arbítrio não há valor nem atitude.
Atos externos,
benéficos, sem atitude interna, boa, podem ser morais, mas não são éticos. A
ética, como dissemos, é um transbordamento da mística, e a mística consiste
numa harmonia da consciência humana com a consciência divina. Um homem
internamente mau, desarmonizado com Deus, pode ser externamente beneficente,
benfeitor da humanidade. Simples moralidade não prova a mística, mas toda
mística se revela em ética. A moral é um arranjo artificial de ego para ego,
mas a ética é um transbordamento natural e irresistível da mística, é o
extravasamento espontâneo de uma plenitude interior, assim como o fruto é a
manifestação da exuberante vitalidade da árvore. Uma laranja que não nasceu da
laranjeira é uma laranja artificial, fictícia, uma pseudo laranja (moralidade);
somente uma laranja nascida da laranjeira é uma laranja verdadeira (ética).
Nenhum homem, com toda a sua ciência e técnica, pode fazer uma laranja
verdadeira; só a laranjeira (mística) pode produzir de dentro de sua própria
alma, da Vida, e a Vida é Deus.
A mística é o
ser-bom.
A ética é o fazer
bem-nascido do ser bom.
* * *
FONTE:
Carlos T.
Pastorino
Bíblia de Jerusalém
Nenhum comentário:
Postar um comentário