sábado, 4 de setembro de 2021

A videira e os seus ramos

 

A videira e os seus ramos

(Jo 15, 1-11)

Eu sou a videira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta; e todo o que produz fruto ele o poda para que produza mais fruto ainda. Vós já estais puros por causa da palavra que vos fiz ouvir. Permanecei em mim, como eu em vós. Como o ramo que não pode dar fruto por si mesmo. Se não permanece na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, produz muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer.

Se alguém não permanece em mim, é lançado fora como o ramo, e seca.

Tais ramos são recolhidos e lançados ao fogo e se queimam.

Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós pedi o que quiserdes e vós o tereis.

Meu pai é glorificado quando produzis muito fruto e vos tornais meus discípulos.

Assim como o pai me amou também eu vos amei. Permanecei em meu amo se observais meus mandamentos.

Permanecei no meu amo como guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor.

Eu vos digo isso para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena; este é meu mandamento amai-vos uns aos outros como eu vos amei.

A vitalidade do Cristo flui através das almas cristificadas. Esta parábola focaliza alguns aspectos profundamente místicos, que só os verdadeiros iniciados compreenderão devidamente.

Acima de tudo, afirma a presença do Cristo interno no ser humano. Quem

Identifica a entidade cósmica do Cristo com a personalidade de Jesus, não pode aceitar a presença do Cristo em cada homem.

“Eu estou em vós, e vós estais em mim” – estas palavras são totalmente

enigmáticas a quem só conhece o Jesus histórico do 1º século, que viveu na

Palestina, e nada sabe do Cristo cósmico, que está conosco todos os dias até a consumação dos séculos.

O Verbo se fez carne, diz o 4º Evangelho, e fez habitação em nós. Tanto o texto grego do 1º século, como também a tradução latina, dizem “em nós” (en hemin,in nobis); nenhum texto diz “entre nós”. Se o Verbo, o Cristo cósmico, depois da encarnação em Jesus de Nazaré, fez habitação em nós, então agora habita em cada um de nós. O Cristo cósmico, que se revestia da natureza humana de Jesus, e depois da ressurreição cosmificou e cristificou esse Jesus, universalizou-se na forma do Jesus cosmificado. E, nesse estado, o Cristo habita em cada um de nós.

Sem a compreensão desta “inabitação” do Cristo no homem, é incompreensível toda a parábola da videira e seus ramos, que frisa a identidade da vida una e única no tronco da videira (Cristo) e em seus ramos (homens).

Depois de afirmar essa identidade da vida do Cristo e de cada homem, a

parábola apresenta duas modalidades dessa vivência dos ramos na videira: um ramo da videira pode ser estéril, apesar de estar na videira – e um ramo pode ser frutífero: “Quem, estando em mim, não produzir fruto..., quem, estando em mim, produzir fruto...”.

Quer dizer que um homem pode estar externamente no Cristo, sem ser

internamente do Cristo; um homem pode ser cristão, sem ser crístico; um homem pode ser nominalmente do Cristo, sem viver realmente de acordo com o espírito do Cristo; pode ser espiritualmente estéril, apesar de ser ritualmente cristão.

Há cerca de um bilhão de cristãos no mundo – e quantos deles serão crísticos?

“Quem, estando em mim, não produzir fruto, será cortado e lançado fora para ser queimado. ”

Com estas palavras afirma o Evangelho, mais uma vez, a possibilidade da

extinção da individualidade humana, se não for cristificada. A alma humana não é imortal, mas imortalizável; a imortalidade potencial faz parte da natureza humana, é um presente de berço, mas a imortalidade atual é uma conquista da consciência. O homem, mesmo cristão, mas não cristificado, sucumbirá à “morte eterna”, à total extinção no fim do seu ciclo evolutivo.

Por fim, a parábola descreve a sorte do ramo da videira frutífero, isto é, do

homem que, estando no Cristo, produz fruto de vivência crística. E o que a

parábola diz desse homem é, à primeira vista, aterrador: o homem de frutificação crística “será podado a fim de produzir fruto mais abundante”. A poda (em latim purificatio, em grego katharsis) consiste em cortar a maior parte do ramo da videira, deixando apenas uma pequena parte, com o fim de fazer concentrar nessa parte toda a seiva vital da planta e, na primavera, fazê-la produzir fruto mais abundante. A poda, ou purificação, é uma espécie de sofrimento. Todo viticultor sabe que um ramo de videira, quando podado, “chora” durante algum tempo, fazendo pingar no chão suas “lágrimas”, a seiva que sai do ferimento.

Sem essa dolorosa catarse, não há frutificação abundante.

O sofrimento purificador a que, segundo a parábola, é sujeito o homem

cristicamente frutífero, não é uma punição, não é um sofrimento-débito, mas simum sofrimento-crédito, o sofredor não sofre para pagar débito, próprio ou alheio; sofre para aumentar o seu crédito.

Na Sagrada Escritura ocorrem diversos casos de sofrimento-crédito.

Jo sofre, não por ser pecador, mas para aumentar a sua santidade.

O cego de nascença nasceu cego, não por pecados próprios, nem por pecados de seus pais, mas para que nele se manifestassem as obras de Deus para que aumentasse o seu crédito espiritual.

Jesus, redivivo, declara aos discípulos de Emaús, escandalizados com o

sofrimento de um justo, que ele devia sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória, para promover a evolução espiritual do seu Jesus humano.

Os nossos teólogos teriam respondido que Jesus sofreu para salvar a

humanidade, como é tradição rotineira há quase 2000 anos; o Mestre, porém, declara aos discípulos de Emaús que ele sofreu tudo isso “para entrar em sua glória”, para consumar a sua própria evolução crística, de acordo com aquilo que dissera no Gólgota, “está consumado”; não se referia à redenção da humanidade coletiva, mas sim à cristificação total da humanidade individual do seu Jesus humano.

Em todos esses casos, há sofrimento-crédito.

Na parábola da videira, reaparece esse mesmo sofrimento-crédito: o homem que produz fruto é sujeito a um sofrimento purificador para que produza fruto ainda mais abundante.

As leis cósmicas têm caráter nitidamente evolutivo, ascensional.

Quem é bom deve tornar-se melhor, a fim de culminar no ótimo. Por outro lado, o mau que se recusa a tomar-se bom se tornará pior, até baixar a ser péssimo –e o péssimo acaba no zero da extinção. As leis cósmicas não estão interessadas em perpetuar estagnação, nem descer à involução; as leis cósmicas exigem imperiosamente evolução ascensional. Quem não progride, regride, e a regressão acaba no nadir da morte eterna, assim como a evolução culmina no zênite da vida eterna.

Deus é a lei cósmica. Nele não há sentimentalismos piegas. Quem não se realiza se desrealiza; quem não se integra no Infinito se desintegra.

“Quem não produzir fruto será cortado e lançado fora – quem produzir fruto será purificado para que produza fruto mais abundante”.

Esta parábola revela o monismo absoluto da realidade divino-crística. O Uno se revela como Verso em todo o Universo. Na natureza infra-hominal, o Verso das creaturas é automaticamente governado pelo Uno do Creador; no ser humano, porém, mercê do livre-arbítrio, a consciência da presença de Deus pode ser intensificada – e pode também ser debilitada; o homem pode crear em si a pleni-consciência da presença de Deus, como aconteceu em Jesus – e pode também obliterar totalmente a consciência dessa presença, como talvez tenha acontecido na alma de Judas Iscariotes.

O uso ou abuso do livre-arbítrio, como se vê, é responsável pelo bem ou pelo mal que o homem fizer.

FONTE:

Huberto Rodhen

Carlos T. Pastorino

Bíblia de Jerusalém

 

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