A videira e os seus ramos
(Jo 15, 1-11)
Eu sou a videira,
e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta; e todo
o que produz fruto ele o poda para que produza mais fruto ainda. Vós já estais puros
por causa da palavra que vos fiz ouvir. Permanecei em mim, como eu em vós. Como
o ramo que não pode dar fruto por si mesmo. Se não permanece na videira, assim
também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos.
Aquele que permanece em mim e eu nele, produz muito fruto, porque sem mim nada podeis
fazer.
Se alguém não
permanece em mim, é lançado fora como o ramo, e seca.
Tais ramos são
recolhidos e lançados ao fogo e se queimam.
Se permanecerdes
em mim e minhas palavras permanecerem em vós pedi o que quiserdes e vós o tereis.
Meu pai é
glorificado quando produzis muito fruto e vos tornais meus discípulos.
Assim como o pai
me amou também eu vos amei. Permanecei em meu amo se observais meus
mandamentos.
Permanecei no meu
amo como guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor.
Eu vos digo isso
para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena; este é meu
mandamento amai-vos uns aos outros como eu vos amei.
A vitalidade do
Cristo flui através das almas cristificadas. Esta parábola focaliza alguns
aspectos profundamente místicos, que só os verdadeiros iniciados compreenderão
devidamente.
Acima de tudo,
afirma a presença do Cristo interno no ser humano. Quem
Identifica a
entidade cósmica do Cristo com a personalidade de Jesus, não pode aceitar a
presença do Cristo em cada homem.
“Eu estou em vós,
e vós estais em mim” – estas palavras são totalmente
enigmáticas a
quem só conhece o Jesus histórico do 1º século, que viveu na
Palestina, e nada
sabe do Cristo cósmico, que está conosco todos os dias até a consumação dos
séculos.
O Verbo se fez
carne, diz o 4º Evangelho, e fez habitação em nós. Tanto o texto grego do 1º
século, como também a tradução latina, dizem “em nós” (en hemin,in nobis);
nenhum texto diz “entre nós”. Se o Verbo, o Cristo cósmico, depois da
encarnação em Jesus de Nazaré, fez habitação em nós, então agora habita em cada
um de nós. O Cristo cósmico, que se revestia da natureza humana de Jesus, e
depois da ressurreição cosmificou e cristificou esse Jesus, universalizou-se na
forma do Jesus cosmificado. E, nesse estado, o Cristo habita em cada um de nós.
Sem a compreensão
desta “inabitação” do Cristo no homem, é incompreensível toda a parábola da
videira e seus ramos, que frisa a identidade da vida una e única no tronco da
videira (Cristo) e em seus ramos (homens).
Depois de afirmar
essa identidade da vida do Cristo e de cada homem, a
parábola
apresenta duas modalidades dessa vivência dos ramos na videira: um ramo da
videira pode ser estéril, apesar de estar na videira – e um ramo pode ser
frutífero: “Quem, estando em mim, não produzir fruto..., quem, estando em mim,
produzir fruto...”.
Quer dizer que um
homem pode estar externamente no Cristo, sem ser
internamente do
Cristo; um homem pode ser cristão, sem ser crístico; um homem pode ser
nominalmente do Cristo, sem viver realmente de acordo com o espírito do Cristo;
pode ser espiritualmente estéril, apesar de ser ritualmente cristão.
Há cerca de um
bilhão de cristãos no mundo – e quantos deles serão crísticos?
“Quem, estando em
mim, não produzir fruto, será cortado e lançado fora para ser queimado. ”
Com estas
palavras afirma o Evangelho, mais uma vez, a possibilidade da
extinção da
individualidade humana, se não for cristificada. A alma humana não é imortal,
mas imortalizável; a imortalidade potencial faz parte da natureza humana, é um
presente de berço, mas a imortalidade atual é uma conquista da consciência. O
homem, mesmo cristão, mas não cristificado, sucumbirá à “morte eterna”, à total
extinção no fim do seu ciclo evolutivo.
Por fim, a
parábola descreve a sorte do ramo da videira frutífero, isto é, do
homem que,
estando no Cristo, produz fruto de vivência crística. E o que a
parábola diz
desse homem é, à primeira vista, aterrador: o homem de frutificação crística “será
podado a fim de produzir fruto mais abundante”. A poda (em latim purificatio,
em grego katharsis) consiste em cortar a maior parte do ramo da videira,
deixando apenas uma pequena parte, com o fim de fazer concentrar nessa parte
toda a seiva vital da planta e, na primavera, fazê-la produzir fruto mais
abundante. A poda, ou purificação, é uma espécie de sofrimento. Todo viticultor
sabe que um ramo de videira, quando podado, “chora” durante algum tempo,
fazendo pingar no chão suas “lágrimas”, a seiva que sai do ferimento.
Sem essa dolorosa
catarse, não há frutificação abundante.
O sofrimento
purificador a que, segundo a parábola, é sujeito o homem
cristicamente
frutífero, não é uma punição, não é um sofrimento-débito, mas simum
sofrimento-crédito, o sofredor não sofre para pagar débito, próprio ou alheio;
sofre para aumentar o seu crédito.
Na Sagrada
Escritura ocorrem diversos casos de sofrimento-crédito.
Jo sofre, não por
ser pecador, mas para aumentar a sua santidade.
O cego de
nascença nasceu cego, não por pecados próprios, nem por pecados de seus pais,
mas para que nele se manifestassem as obras de Deus para que aumentasse o seu
crédito espiritual.
Jesus, redivivo,
declara aos discípulos de Emaús, escandalizados com o
sofrimento de um
justo, que ele devia sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória, para
promover a evolução espiritual do seu Jesus humano.
Os nossos
teólogos teriam respondido que Jesus sofreu para salvar a
humanidade, como
é tradição rotineira há quase 2000 anos; o Mestre, porém, declara aos
discípulos de Emaús que ele sofreu tudo isso “para entrar em sua glória”, para
consumar a sua própria evolução crística, de acordo com aquilo que dissera no
Gólgota, “está consumado”; não se referia à redenção da humanidade coletiva,
mas sim à cristificação total da humanidade individual do seu Jesus humano.
Em todos esses
casos, há sofrimento-crédito.
Na parábola da
videira, reaparece esse mesmo sofrimento-crédito: o homem que produz fruto é
sujeito a um sofrimento purificador para que produza fruto ainda mais
abundante.
As leis cósmicas
têm caráter nitidamente evolutivo, ascensional.
Quem é bom deve
tornar-se melhor, a fim de culminar no ótimo. Por outro lado, o mau que se
recusa a tomar-se bom se tornará pior, até baixar a ser péssimo –e o péssimo
acaba no zero da extinção. As leis cósmicas não estão interessadas em perpetuar
estagnação, nem descer à involução; as leis cósmicas exigem imperiosamente
evolução ascensional. Quem não progride, regride, e a regressão acaba no nadir
da morte eterna, assim como a evolução culmina no zênite da vida eterna.
Deus é a lei
cósmica. Nele não há sentimentalismos piegas. Quem não se realiza se
desrealiza; quem não se integra no Infinito se desintegra.
“Quem não
produzir fruto será cortado e lançado fora – quem produzir fruto será
purificado para que produza fruto mais abundante”.
Esta parábola
revela o monismo absoluto da realidade divino-crística. O Uno se revela como
Verso em todo o Universo. Na natureza infra-hominal, o Verso das creaturas é
automaticamente governado pelo Uno do Creador; no ser humano, porém, mercê do
livre-arbítrio, a consciência da presença de Deus pode ser intensificada – e
pode também ser debilitada; o homem pode crear em si a pleni-consciência da
presença de Deus, como aconteceu em Jesus – e pode também obliterar totalmente
a consciência dessa presença, como talvez tenha acontecido na alma de Judas
Iscariotes.
O uso ou abuso do
livre-arbítrio, como se vê, é responsável pelo bem ou pelo mal que o homem
fizer.
FONTE:
Huberto Rodhen
Carlos T.
Pastorino
Bíblia de Jerusalém
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